Quarto Escrito – Muitos ensinamentos
Estel despertou com a luz do dia que entrecortava as folhas das árvores. Sentou-se. O braço direito agora estava apenas um pouco dolorido. Ficou pensando no sonho que tivera. O primeiro diferente depois de tanto tempo sonhando com o mesmo. Havia uma mulher num porto de pedra, ela parecia esperar por alguma coisa ou alguém; depois dois riscos amarelos pairavam no meio do escuro; e, no final, um lótus branco se abrindo e se desmanchando em sangue. Ter um sonho diferente não foi exatamente uma alegria, afinal o dessa noite foi tão sem sentido quanto o outro.
— Bom dia. — disse Solenni, chegando ao local com uma bolsa carregada. — Está se sentindo melhor? Está com uma cara preocupada...
— Hã?! Eu?! Não, não é nada não. Meu braço que amanheceu dolorido, nada demais. — mentiu Estel. Não tinha pra que Solenni saber dos seus sonhos malucos, podia ser que ela não tivesse o mesmo pensamento de ontem para com eles. — É...eu me mexi muito durante a noite? Pode ter sido por isso que o braço ficou assim.
— Não, na verdade não. Esse dolorido é normal, logo passa. Trouxe algumas frutas para comermos antes de ir. Não quero me demorar mais aqui, na casa de meu avô comeremos melhor.
A garota retirou da sacola uma dezena de frutas que lembravam pêssegos no formato e tamanho. Sua casca era de um amarelo muito claro.
— Chama-se glicosinã, é muito comum por aqui. Ou pelo menos era, antes de as aracnéias aparecerem. — disse ela. — Para abrir é só enfiar a unha na casca e puxar.
Estel fez exatamente como a outra fizera. Dentro a fruta tinha cor de goiaba, mas textura e sabor de banana. Gostou tanto que comeu três. Os dois então juntaram suas coisas (mais as de Solenni, pois Estel só tinha o escudo) e partiram.
— Por que jogou aquelas flores nas brasas? — questionou Estel.
—Aquelas flores têm um cheiro muito forte quando são queimadas. — respondeu Solenni, olhando atenta para os lados. — Vão despistar o nosso cheiro, caso uma aracnéia chegue ali. Mas fique atento.
E Estel ficou. Tão atento que não pode deixar de notar as olheiras que preenchiam a parte debaixo dos olhos de Solenni. Ela deveria estar mais cansada do que aparentava, porém estava concentrada demais para deixar transparecer. Estel tinha a impressão de que ela já vivera muito, apesar da pouca idade...era estranho. Havia algo de familiar em Solenni.
A caminhada durou mais algumas horas. A atenção de Estel então descobriu muros enormes cor de areia que se erguiam mais a frente. Neles, e nas torres de mesma cor, balançavam ao vento flâmulas de vários tamanhos. Depois disso um mundo se espalhava diante de seus olhos. Era como estar de volta à Grécia ou a Roma antiga: construções de cores claras com colunas altas e decoradas; ruas de pedras cinzentas bem pavimentadas, braseiros enormes (que àquela hora estavam apagados), um mercado lotado com tendas coloridas, um anfiteatro, um hipódromo (que parecia ter mais do que só cavalos) e um coliseu. Árvores amplas e em flor, estátuas e fontes faziam a decoração. Algumas pessoas se vestiam com túnicas, robes e mantos, e outras com armaduras e capacetes brilhantes.
O garoto estava tão perdido na beleza do lugar, que nem notou os olhares curiosos que lançavam a ele e a seu escudo. Só quando alguns reverenciaram na direção deles, é que percebeu: os gestos eram para Solenni.
— Por que estavam fazendo aquele movimento para você? — perguntou Estel, curioso.
—Por que eles respeitam o meu avô, Mestre Leônidas. — respondeu a garota. — Ele é um dos Cinco Grandes de Espártaca. Um dos generais que trouxeram a vitória ao reino quando a guerra se espalhou por aqui.
Estel quis saber mais, contudo o rosto de Solenni adquiriu um tom sombrio quase de dor ao falar aquilo. Melhor não continuar. Eles atravessaram mais algumas ruas, até finalmente parar diante de uma enorme e bela casa branca. Havia nela um jardim com diferentes plantas e uma árvore central de flores amarelo-ouro de um lado, e um campo de areia rebaixado e ladeado por degraus de concreto do outro. Eles caminharam pela varanda colunada até Solenni dizer:
— Espere aqui um instante.
E a garota se separou dele, entrando numa das portas laterais de madeira trabalhada.
— Olá! — disse uma voz à direita de Estel, pouco tempo depois. —Você deve ser o jovem que a Mestra Solenni comentou.
Estel espantou-se um pouco. Um garoto, que aparentava ter mesma idade que Estel, vinha na sua direção carregando nos ombros um longo bastão de madeira onde grandes potes brancos balançavam numa ponta e na outra. Ele tinha cabelos com cachos escuros e uniformes, olhos cinzentos e incisivos, mas sorriso amistoso. Ao lado dele, Estel sentiu-se raquítico. Contudo, julgando pelo barulho que os potes fizeram ao serem colocados no chão, lembrando pedras se batendo, estava explicada a envergadura do outro.
—Eu me chamo Caésar. — disse o jovem, colocando o punho direito fechado sobre o peito esquerdo, o mesmo gesto que fizeram para Solenni momentos atrás. — E você deve ser Estel, não é? Mestra Solenni me pediu para lhe fazer companhia enquanto ela conversa com Mestre Leônidas. Ei, seus olhos são tão esquisitos! E suas roupas também...
— É...ah, obrigado...mas, por que você chama Solenni de “mestra”? — indagou Estel, intrigado, querendo mudar de assunto.
— Ora, porque é isso que ela é, uma mestra. Solenni é a mestra-espadachim mais nova de Espártaca. Foi desafiada muitas vezes, mas sempre venceu. Eu não seria louco de fazer uma coisa dessas, é pedir para morrer duas vezes.
Estel não entendeu o “duas vezes”, contudo, no momento que iria perguntar o porquê daquilo, as portas laterais abriram-se. Solenni reaparecia agora acompanhada de um homem alto e muito forte (Caésar era o raquítico agora). Sua pele era bronzeada, marcada de músculos e cicatrizes. Os olhos sérios eram da mesma cor dos de Solenni, os quais tinham o tal quê de agressividade muito maior do que o da outra. Seu cabelo grisalho só lhe dava mais experiência e não velhice.
— Então, você é o tal Estel Elecktrion? — disse o homem, em sua voz grave.
— Sim. — respondeu Estel, um tanto tenso. Sentia que o homem lhe passava um raio-x de cima a baixo com o olhar severo.
— Você veio de “outro mundo”?
— Sim, isso mesmo. Se chama Terra.
— Sabe onde está? Que lugar é esse? Quem o trouxe?
— Estou em Eternia, e aqui é Espártaca, não é? E quem me trouxe foi o Sábio-Rei...pelo menos foi o que Perseu me disse.
— Quem o recepcionou em Eternia? Sabe o nome do símbolo que carrega? Sabe o que você é?
— Foi o Perseu quem me recebeu e o símbolo você diz é a estrela ou o escudo?! Se for a estrela, é Vésper o nome dela! E o que eu sou, bem, Perseu me chamou de um nome bem esquisito, mas significa Guardião do Escudo!
— Por que estava na Floresta Elísia?
— Porque eu precisava ir para lá! Quer dizer, Perseu me disse que o meu escudo estava apontando para cá, daí eu vim!
— Por que incitou uma aracnéia a atacá-lo? Sabe manusear o escudo?
— Ei! Eu não chamei aquele bicho para ele me comer!! Não sou doido a esse ponto e NÃO, eu NÃO sei usar o escudo!
— Qual seu objetivo em Eternia? Você foi forçado ou é seu desejo ajudar esse mundo?
— Eu não tive escolha, tá certo?! É, fui meio forçado por assim dizer!! Fui trazido para cá sem aviso nenhum, me jogaram uma profecia maluca e a porcaria desse escudo que eu nem sei usar! Perseu me chamou de Ŝirmilo þildo, mas do que adianta?! Eu quase que morria algumas horas depois de chegar a Eternia! Solenni me ofereceu ajuda e eu aceitei, porque eu estou completamente perdido aqui! Agora dá pra parar com a merda desse interrogatório?!!
Estel bufou aborrecido, não acreditava no que havia feito, mas o homem lhe enchera o saco com tantas perguntas de uma vez. Porcaria de interrogatório, por acaso ele era algum criminoso?! Porém, para o espanto do garoto, que imaginou que o homem ficaria ofendido com sua grosseria, viu-o rir abertamente e olhar para Solenni dizendo:
— Sim, minha filha, sem dúvida é ele mesmo!
— Como assim?! – exclamou Estel, indignado.
— Minha neta me passou todas essas informações que você disse, garoto, tirando a palavra antiga para Guardião do Escudo e a sua voz impaciente, claro. Eu precisava de provas de que você estava falando a verdade, e as tive! Principalmente pela palavra antiga, só os Vigilantes sabem das palavras originais da profecia. Fora outro detalhe importante também.
— O que?!
— Isso não importa agora. Até, porque, se depois disso tudo, você estiver nos enganando, esse escudo vai parar na sua garganta ao invés de colocado no braço.
— Nossa, que convidativo. Espártacos são sempre assim “simpáticos”?!
— Gostei de você, Estel! — o homem deu uma sincera e alta risada, acompanhada de uma sonora tapa na omoplata esquerda de Estel. O garoto jurou que sentiu o ombro deslocar. – Você não esconde o que pensa e nós, espártacos, apreciamos isso! Meu nome é Leônidas, mas chame a mim com um sonoro “mestre” na frente a partir de hoje, pois você é meu aluno agora. Caésar, pode providenciar algumas vestes de verdade para esse jovem? E um dos quartos também?
— Sim, mestre! — respondeu o jovem, saindo rapidamente com os potes nos ombros.
— Quanto a vocês dois, já fizeram o desjejum?
— Comemos algumas glicosinãs mais cedo. — respondeu Solenni.
— Não é o suficiente. — contestou Leônidas, olhando para Estel. — Principalmente para alguém que logo vai pegar no pesado, só esperar que esse braço remende. Vamos, faço alguma coisa para vocês.
Enquanto todos comiam, Solenni relatava ao avô todas as novas notícias que conseguira naqueles seis meses longe de casa. Leônidas prestava atenção aos mínimos movimentos de Solenni, matando as saudades da neta. Estel achou melhor deixar os dois conversando enquanto ele reorganizava os fatos em sua cabeça. Coisas irreais haviam acontecido com ele apenas em algumas horas, era tanta informação que chegava a ficar zonzo. Tudo aquilo parecia sonho, mas o medo, a dor e a fome o faziam compreender que era real. Tão real que lhe dava um frio tenso na barriga. Tirando a preocupação com a própria vida (o que não era uma preocupação qualquer), Estel só pensava na mãe. Quanto tempo já havia se passado por lá? Será que ela já estava louca a procurá-lo? Será que de tão preocupada já pedira ajuda àquele tarado do Luciano (ele esperava com todas as forças que não)?! Se ao menos pudesse falar com ela!
— Estel! — chamou Solenni. — Está tudo bem?
— Si...sim! — respondeu ele, voltando si. — Por quê?
— Você estava fazendo uma cara de dor. Tem certeza de que não está sentindo nada?
— Eu tô legal, sério. Só estava pensando em tudo que aconteceu comigo...tanta coisa doida! Em tão pouco tempo! Nem sei o que fazer primeiro!
— Imagino que você esteja confuso mesmo. — falou Leônidas, francamente. — Ser colocado no meio de uma guerra que não tem nada a ver com você. Isso é estranho.
— Verdade. — concordou Estel. — Eu perguntei a Perseu o porquê de eu ser chamado, mas ele pareceu que não sabia responder.
— Por hora, deixe isso de lado, garoto. — recomendou o espártaco. — Não sofra por antecipação, isso não vai lhe trazer nenhuma solução, muito menos uma resposta. Em algum momento todas as suas dúvidas serão sanadas.
— Assim espero... — falou o garoto, mas sem muita convicção.
— Bom, pelo menos nos próximos seis meses, você vai estar ocupado demais para pensar nisso.
— Seis meses?! Mas eu não sei se...
— Estel, diga-me, como acha que vai fazer qualquer coisa, se não sabe nem ao menos se defender ou saber onde está? Se não estou enganado, foi minha neta que o salvou de ser devorado.
— É... Mas seis meses vai ser o suficiente?
— Para o básico, com certeza! Você está falando com Leônidas, Estel! Grande parte dos guerreiros que você viu por aí fui eu quem treinou. E eles começaram como você, do zero. Mas, de certo modo, de você eu exigirei mais, porque sei que você pode, senão não carregaria uma das três armas da profecia. Em seis meses, rapaz, você vai ser outro. Estou disposto a ajudá-lo, pois você se dispôs a nos ajudar, seja lá porque motivo for. Aceita?
Estel não respondeu de imediato, contudo não tinha muito no que pensar. Não podia recusar essa ajuda, vindo que quase milagrosamente. Perseu disse que havia pressa, mas saber uma ou duas coisas para sobreviver viriam muito a calhar.
— Aceito. — respondeu o garoto, sorrindo. — E obrigado.
E assim, seis meses se desenrolaram.
Durante eles, Estel recebeu todo tipo de treinamento. Com Leônidas aprendeu a manejar o escudo, pois o mestre era um Defensor, um guerreiro especializado em manejar esse tipo de armamento (por sinal, o mais forte de Espártaca). Uma coincidência incrível e exigente, motivadora e severa. Além disso, descobriu a melhor maneira de carregar jarras cheias de areia, metal, madeira e etc, como Caésar fazia, já que Leônidas também era um exímio ferreiro.
Com Solenni aprendeu o estilo de luta corpo-a-corpo dos espártacos. Um tolo poderia pensar que esse treinamento teria um lado bom, afinal Solenni era muito bonita. Mas o que ela tinha de bela, tinha de dura como mestra, não tolerava a mínima imperfeição e a costas de Estel nunca foram ao chão tantas vezes em seis meses. Aprendeu também com ela uma boa parte da geografia de Eternia, os melhores caminhos para cada lado do mundo e como sobreviver nele. Os dois fizeram excursões para as regiões próximas ao reino. Numa delas foram atacados por aracnéias, o que só fez comprovar que o treinamento estava surtindo efeito, pois Estel lutara com primor, mesmo que no final ainda tenha saído com alguns cortes e arranhões.
Com Caésar foi, de certa forma, mais leve. Quando se tratava de andar dentro de Espártaca, ele era especialista. Caésar era o Escudeiro de Leônidas, um faz-traz-carrega-leva-etc-e tudo. E como Estel fora encarregado desses serviços diários também, comumente os fazia com ele.
Então, para a surpresa de Estel, os seis meses estavam terminando. Os dias passaram tão rápidos (e tão cansativos) que nem notara, a não ser quando via sua imagem num espelho. Ele tinha que começar a pensar no que fazer, apesar de que a perspectiva de viajar sozinho por aí não era nada encorajadora, mesmo que tenha aprendido tanta coisa. Ele poderia não ter a mesma sorte de encontrar outra Solenni pelo caminho. Contudo ele tinha que ir, não podia estacionar ali para sempre, assumira um compromisso. Falando em compromisso... Perseu... Ele não aparecera para Estel nesse tempo. Será que estava bem? Outra pessoa que gostaria de saber se estava bem era a mãe. Seis meses longe. Era agoniante ficar especulando o que estava acontecendo no seu mundo. Além de tudo isso, havia os sonhos estranhos que voltaram com força total: uma praia cinzenta, cristais verdes, a mulher que esperava no porto, os riscos amarelos no escuro e o lótus branco que virava sangue. Não havia coisa com coisa naquilo! Quantos anos teria de esperar de novo para ter um sonho com “sentido”?! E nem pensar de contar alguma coisa para alguém, já bastavam os olhos chamarem toda a atenção. Então, no fim das contas, era seguir o conselho do Mestre Leônidas: esperar.
— Solenni está demorando. — comentou Estel. — Não era para ela ter voltado hoje de manhã?
— Sim. — respondeu Leônidas, com a feição fechada. —Quando ela chega aos entrepostos sempre manda uma mensagem junto com a troca de sentinelas. Mas todos já passaram e nada.
— Espero que não tenha acontecido nada com a Mestra. — disse Caésar. — As patrulhas têm trazido notícias péssimas esses dias, a quantidade de aracnéias dobrou e algumas partes da floresta estão apodrecendo por causa delas.
O comentário do jovem não deixou o clima ali mais feliz. Solenni saíra de Espártaca há uma semana para escoltar uma carga de suprimentos para o entreposto mais distante do reino, próximo as Montanhas Rubras ao sul. Estel falou em voz alta, contudo mais para si mesmo que para os outros:
— Vai ficar tudo bem com ela. Não aconteceu nada, não aconteceu nada.
— Eu vou até o entreposto oeste, o que ela comumente fica antes de voltar. — concluiu Leônidas, a preocupação aumentando à medida que uma noite sem estrelas se expandia sobre Espártaca.
— Vocês...
Houve então batidas na porta principal. Estel num pulo estava lá para abri-la. Tomou um susto ao ver quem estava diante dele: Perseu, com uma aparência muito cansada, vestes rasgadas em alguns pontos e arranhões pelos braços fortes, que carregavam uma Solenni duas vezes pior que ele, acrescentando uma perna enfaixada no improviso que exibia uma enorme mancha de sangue.
— Solenni!! — exclamou Estel, assustado. — Perseu, o que foi que houve?! O que...
— Acalme-se, Estel. — pediu o cavaleiro, arfando. Ele entrou na casa e procurou um assento próximo onde colocou a jovem. — Na medida do possível, ela está bem.
O garoto aproximou-se de Solenni que arfava também, completamente exausta, a testa coberta de pingos d’água. Ela retribuiu a preocupação com um olhar tranqüilo, dizendo que o pior já passara.
— O que um dos Vigilantes está fazendo junto à minha neta?! — indagou Leônidas, aturdido. — O que houve?!
— Eu fui chamado para me encontrar com Solenni na saída do Templo Hórus. — respondeu Perseu, sério. — Ela é Glavo Damo, a Dama da Espada.
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