Quinto Escrito - Solenni
— Como disse?! — espantou-se Leônidas, assim como todos ali.
— Solenni, mostre sua espada. — pediu Perseu.
Solenni puxou o cinto de sua cintura e nele o avô da espártaca notou uma bainha diferente. Era de couro escuro, detalhada com letras curvilíneas. Porém o que estava dentro foi o que realmente arrancou um suspiro admirado do velho ferreiro e de seus dois aprendizes. Uma espada comprida, levemente curva e um pouco mais fina da que Solenni comumente usava; sua base, em bronze, era um sol com pontas onduladas onde no centro brilhava uma joia redonda amarelo-ouro; o cabo era revestido de tiras laranja trançadas, terminando numa ponta maciça de bronze.
— Pela Coroa-Branca! — disse Caésar, com os olhos arregalados. — É uma maravilha!
— Concordo plenamente. — falou Leônidas, analisando a arma em mãos. — É uma cimitarra magnífica e, ainda ouso dizer, foi feita especialmente para Solenni. Tamanho e peso perfeitos para a estatura dela e o modo como luta, com mais rapidez e jeito do que força. Como isso aconteceu, minha filha?
— Vô, você se lembra dos sonhos que eu tive até hoje. O último finalmente tomou forma real. — respondeu Solenni, ainda arfando. — No caminho de volta para Espártaca, eu me encontrei com a Segunda Vigilante, Andrômeda. Ela me levou para o Templo Hórus, onde disse que eu era a Dama da Espada e me fez tirar a arma de dentro de uma arca. Depois disso, ela falou da minha litta, minha única litta no Deserto Sabloro. Daí ela teve que ir.
— Eu fui o encarregado de trazê-la de volta. — continuou o cavaleiro. — Mas alguma coisa ou alguém me impediu de sair dali...e fomos cercados por um grande bando de canigros.
— Canigros? — estranhou Estel.
— Um dos muitos monstros que surgiram em Eternia, cães negros sempre famintos. Conseguimos expulsá-los, mas não saímos ilesos.
— Pelo visto as coisas estão piores do que imaginei... — disse Leônidas, tenso. Ele aproximou-se da neta e retirou a bandagem improvisada. O corte na perna não era profundo, mas extenso e dele saía muito sangue. — Vamos dar um jeito nisso imediatamente. Estel, água; Caésar, medicação! Aquelas criaturas deram trabalho até mesmo para você, Perseu?
— Sim... — respondeu o Vigilante, decepcionado. — Digo que, se não fosse o apoio de sua neta, seria eu quem estaria assim. O Sábio-Rei tem se consumido muito para impedir a total libertação da Coroa Negra, o que acaba nos afetando também, pois fomos criados por ele. É por isso que temos pressa em reunir os Regidos e o Abençoado.
— Então fiz mal em ficar aqui? — indagou Estel, reaparecendo naquele momento com uma jarra de água, meio constrangido.
— De modo algum, Estel. Seria irresponsabilidade minha negar esse tempo de aprendizado para você. É o mínimo que eu poderia fazer por quem foi praticamente jogado no meio de uma guerra.
— Então você sabia de tudo? Digo...sabia que eu iria me encontrar com a Solenni e que eu ficaria aqui?
— Não, pedi apenas que se guiasse pelo seu Escudo. Ele o levou até uma Regida, como eu disse que poderia fazer. Mas em relação a ficar aqui, a aceitar uma ajuda, foi você quem decidiu isso, você que quis. Estel, você e os outros Regidos podem até terem sido colocados numa profecia sem que tivessem escolha, mas a partir do momento que sabem dela e do que precisam fazer, a escolha do que irão fazer é exclusiva de vocês.
— Então, se conheço minha neta, ela vai querer partir, não é mesmo? — indagou Leônidas, lançando um olhar sério, mas carinhoso, para Solenni. — Mas, espártaca, como seu mestre e avô, digo que só colocará os pés para fora de casa quando estiver plenamente recuperada.
Solenni não disse nada, apenas acenou positivamente com a cabeça.
— Agora que Solenni está em ótimas mãos, vou-me. — anunciou Perseu.
— Pra onde vai? — indagou Estel.
— Para junto dos outros Vigilantes e, depois, para onde precisarem de nós. Desculpe-me pelo tempo que passei desaparecido, mas temos um mundo inteiro para zelar. Contudo digo mais uma vez que ajudaremos vocês no que precisarem. Estimo melhoras, Solenni. Que as graças da Coroa Branca e do Sábio-Rei caiam sobre vocês.
— Obrigada, Perseu. — respondeu a garota. — Agradeço também pela ajuda. Espero que esteja tudo bem com Andrômeda.
— Farei de tudo para mantê-la bem. Até outro dia.
E com um último aceno, o cavaleiro desapareceu.
Poucos dias depois Solenni já se mostrava bem melhor, apenas mancando por conta da perna machucada e dolorida. Leônidas queria que a neta ficasse em repouso, mas a jovem repudiava a idéia de ficar parada por muito tempo. Então o avô deu um jeito de deixar todas as tarefas do dia feitas em tempo recorde, o que foi obra de Caésar e Estel. Eles diziam entender Solenni, porém não a deixavam dar sequer um suspiro mais forte. Vencida, ela decidiu passar suas horas livres no jardim. Estel descobriu que Solenni sabia muito sobre plantas, e que todas as que estavam plantadas ali tinham alguma propriedade medicinal. Certas vezes ela preparava remédios para uso dos da casa. Era um conhecimento muito básico, dizia ela, mas que já impressionava, dizia o avô.
Estel estava mais animado do que nunca, afinal, Solenni era uma Regida e ele não teria mais que viajar sozinho, apesar de ter sido instruído para isso. Mas havia o fato de ser ela. Solenni sabia mais sobre o mundo do que ele e era uma lutadora incrível. Às vezes dura e séria demais, só que amigável e prestativa também, o suficiente para se ficar admirado.
Os dois perdiam horas conversando mesmo que o assunto fosse o mesmo: Eternia e Espártaca. Estel até que tentou descobrir mais da própria Solenni, mas ela sempre se esquivava desse assunto, então desistiu. Do mestre soube menos ainda, pois toda vez que o via, ou ele lhe mandava fazer alguma coisa, ou o próprio Estel se esquecia de perguntar. De Caésar a única informação que conseguiu foi que os pais de Solenni morreram muito cedo de um modo não muito feliz...mas exatamente como, não soube.
Num fim de tarde, enquanto arrumava o depósito de potes de pedra, Estel recebeu a visita de Solenni. Quando não estava com as vestes de batalha ou de viagem, Solenni vestia-se com roupas que o garoto vira em gravuras nos livros de história grega, mas elas não eram feitas de pedra, e sim de tecidos coloridos e com uma larga fita de franjas amarrada á cintura. Notou também que ela nunca soltava completamente os cabelos, que ondulavam até a cintura; havia, nem que seja, uma mecha presa (e isso era comum de todas as mulheres do reino, até as de cabelo mais curtinho davam um jeito de prendê-los). De uma coisa ele tinha certeza, em todos os casos ela ficava bonita.
A espártaca aproximou-se com sua comum expressão séria, porém junto com esta, havia um certo ar de constrangimento.
— Estel, será que a gente pode conversar? — perguntou ela. — Aqui no pátio.
— Tudo bem, mas...tem certeza de que quer ficar por perto? Passei o dia hoje ajudando o mestre na forja, então, estou sujo, suado e, com certeza, fedido. — brincou Estel, fazendo uma careta, tentando disfarçar as pontadas de ansiedade na barriga.
— Você está banhado e perfumado na frente das coisas que já vi por aí.
— Como está sua perna?
— Curada. Meu avô está providenciando tudo para nossa partida.
— É...ele comentou isso comigo hoje. Fica tudo pronto em poucos dias.
Eles se sentaram nos degraus que davam para o quintal da casa, onde árvores frutíferas cresciam e um poço velho dormia. Solenni começou:
—Bom, Estel, eu queria me desculpar com você...
— Hã?! Desculpar...?! — espantou-se o garoto, sentindo a barriga de ansiedade murchar como uma bexiga sem nó. — Se você fez alguma coisa de errado, então nem eu estou sabendo disso.
— Não foi algo de agora. Quando nos encontramos na floresta e falei dos meus motivos de acreditar em você, eu menti.
— É...isso eu realmente não sabia.
— Sua aparência, a arma que carregava, o jeito de falar e entre outras coisas foram, sim, motivos para eu acreditar, mas não o principal.
— Então o que foi?
— Sonhos. Desde que me lembro tenho sonhos estranhos, mas eles só começaram a tomar forma de uns tempos para cá. O que se resumiu em apenas dois: um eu me encontrando com alguém na floreta, e o outro eu me encontrando com Andrômeda para conseguir a espada. Quando encontrei aquele homem, os sonhos vinham, mas sem nexo ainda, então dei uma chance e acabei acreditando nele. O que se mostrou uma péssima idéia. Depois disso deixe de lado o que sonhava, não ligava mais. Então sonhei com você claramente. O rosto, as roupas, em que parte da Floresta Elísia estava e que uma aracnéia o estava atacando. Mas eu não disse isso a você por segurança.
— Não queria ser enganada de novo, não era?
— Exatamente. Contei o que houve comigo para intimidá-lo, caso você tivesse qualquer outra intenção, como aquele ladrão. Mas tudo ocorreu bem. Trouxe você para cá como uma espécie de teste também, afinal, estaria debaixo de três olhares ao invés de só um. Meu avô sabia desses sonhos que eu tinha, mas só soube do que eu tive com você no dia em que chegamos. Nesses seis meses estivemos o observando, procurando o menor sinal de mentira, só que não houve, para nossa alegria. Então tive a confirmação definitiva: Perseu e Andrômeda. Eles me perguntaram sobre você, como estava. Não tenho mais motivos para desconfiança, pelo contrário. Desculpe-me por isso, Estel.
— Tudo bem, Solenni. Para falar a verdade pensei que fosse algo pior. Deus me livre mentir para alguém como você e, principalmente, para alguém do tamanho do seu avô. Confesso que fiquei bem desconfiado com toda essa boa vontade...isso no meu mundo é muito raro, sem ter alguma coisa troca. Mas gostei de saber que você também sonha.
— Você sonhou também?
— Sim...e ainda sonho. Não vi você ou qualquer uma das pessoas que conheci aqui, mas vi a estrela e ouvi a voz do Sábio-Rei. Os outros sonhos são com muitas imagens, todas malucas...
— O que você vê?
— Uma praia cinza, uma mulher de costas numa ponte de pedra, cristais verdes, flores que viram sangue....você entende algumas dessas coisas?
— Sinceramente, não. São coisas malucas mesmo.
Estel bufou e riu. Continuou:
— Por que será que tenho esses sonhos?
— Não sei, Estel. Quem saiba seja o Sábio-Rei, mais uma vez, tentando lhe dizer alguma coisa. Eu não o vi nem ouvi em meus sonhos. Quem sabe, falar com você seja mais fácil para ele.
— Mas por que eu? Eu nem sou daqui.
– Não serei eu que vou poder responder isso, Estel. Mas...me diz uma coisa, você não sente falta do lugar de onde veio?
— A única coisa do que sinto falta é da minha mãe. Queria saber como ela está. Quanto ao resto eu não ligo muito...achavam que eu era doente, anormal. Tudo por causa dos olhos, e dos sonhos que me faziam falar e me mexer de repente. Tive muitos problemas por causa disso. Tinha que provar que não tinha nenhuma doença contagiosa ou mental. Minha mãe se esforçou muito por mim nesse ponto. Recebeu ajuda de um cara, mas ele só queria com ela.....só queria...você sabe. Os dois únicos amigos que tinha se escondiam de mim, porque tinham medo da “minha reação”. Eles também achavam que eu era maluco. NÃO, eu NÃO sinto falta do meu mundo.
—E o que vai fazer quando essa guerra terminar? Não vai voltar?
— Não sei... Perseu disse que assim que tudo terminasse, eu voltaria, mas não sei como isso vai acontecer exatamente. Se eu puder escolher, vou ficar. Não quero voltar.
— Mas, Estel, o que garante que aqui você não vai sofrer a mesma coisa que no seu mundo?
—Bem...é que...até agora ninguém me xingou nem me chamou de doido...nem você, nem Perseu, nem seu avô...
— Sem querer ser pessimista, Estel, são apenas três pessoas em relação a um mundo inteiro. Eu falei para você que achava seus olhos estranhos, as pessoas aqui de Espártaca que já o viram me falam sobre eles, me perguntam o porquê. E se aqui, você for discriminado também, como vai ser? Vai fugir para “outro mundo”?
—...
— E a sua mãe, como fica?! Será que todo o esforço que ela fez por você não vale por todo o resto? E Perseu, meu avô e eu, vamos valer pelo resto de Eternia? Estel, nunca vi olhos iguais aos seus, não conheço sua família, como vivia, onde vivia, nada. Isso para mim pouco importa, desde que o Estel que eu conheço agora não mude. Mas eu me pergunto se você vai reconhecer isso, se você vai se importar mais com que eu penso de você, do que com o resto de um mundo que nem se deu ao trabalho de conhecê-lo. Estel, não vou dizer que é fácil agüentar isso...mas você foi meio covarde em aceitar arriscar a vida ao invés de arriscar a paciência.
— Ah, você fala isso por que nunca aconteceu com você. Todo mundo fala bem de você e do seu avô.
— Você não conhece a minha vida, Estel.
— E nem você a minha, como você acabou de falar. Não se mete, tá legal?
— Tudo bem, desculpa. Se você não quer dividir comigo o que tem, eu farei o mesmo com você. Não o importunarei mais. Até o jantar.
E Solenni saiu. Não havia tristeza ou raiva em sua expressão, apenas uma leve decepção. A discussão fora calma, como quem conversa sobre banalidades, contudo ela pesava agora como uma bola de chumbo no estômago de Estel. Ele levou apenas cinco segundos para perceber que havia sido um estúpido. Solenni tinha razão, tinha toda razão...mas o orgulho de vítima era sempre assim, acima de qualquer verdade.
— Idiota, você é um idiota! — foi a única coisa que Estel conseguiu dizer, antes de ficar prostrado onde estava, vendo sozinho a noite chegar.
No jantar, Solenni não apareceu. Mestre Leônidas estava com uma expressão distante e entristecida. Será que havia acontecido alguma coisa?
— Mestre, eu...
— Depois do jantar ainda temos alguns afazeres, rapazes. — anunciou o espártaco. — Quero que esteja tudo em perfeita ordem para a viagem de vocês, Estel.
Estel respondeu apenas com a cabeça, não havia espaço ali para qualquer pergunta.
Já passava da meia-noite quando Estel pode finalmente ir se deitar. Estava quebrado, para não dizer chateado também. Subindo as escadas para seu dormitório, viu, mesmo com os olhos pregando de sono, alguém sentado embaixo da árvore central do jardim. E era Solenni.
Observou-a através da janela. Ela estava com uma expressão muito deprimida, mas sem choro; o corpo encolhido com as mãos muito fechadas em torno dos joelhos. O que ela tinha? O que havia acontecido? Teria sido a conversa daquela tarde? Não...deveria ter sido algo mais sério. Mas por que não procurou ninguém? Estel tinha que saber, queria saber.
Quando o garoto virou-se para descer, encontrou Mestre Leônidas. Teve que fazer um grande esforço para não gritar do susto.
— Preocupe-se com os outros, Estel, mas não deixe nunca sua guarda baixa Eu poderia tê-lo matado. — disse ele muito sério, e em seguida muito triste. — É horrível vê-la assim, não é?
— O que houve? — indagou Estel, aflito. — Por que ela está desse jeito? Não vamos fazer nada?
— Eu mesmo já tentei varias vezes ajudá-la, mas não consegui. Podemos conversar, Estel?
— Sim, claro, mas...
— Depois do que eu disser, você está livre para ir onde ela está.
Sabendo que com o mestre não adiantava discutir, Estel acompanhou-o até a grande mesa da sala, onde se acomodaram.
— O motivo de minha neta estar assim, Estel, vem de muito antes e também de agora. — disse Leônidas.
— Como assim? — disse o outro, sem entender.
— Minha neta não teve uma infância feliz. Nesta casa, vivíamos eu, meu filho, sua esposa e sua
filha. Solenni tinha 10 anos quando tudo começou a acontecer. Eternia, nesse tempo, já dava sinais de que não estava bem. Um desses sinais aconteceu aqui em Espártaca.
— O senhor está falando de uma guerra que teve aqui? Solenni comentou comigo muito por cima.
— Pois eu vou lhe contar tudo. Você já viu as Montanhas Rubras, não é? Pois bem, anos atrás, dela surgiu uma horda gigantesca de monstros. Criaturas muito piores do que as aracnéias que lotam a floresta agora. Elas invadiram Espártaca numa onda violenta, elas trouxeram a guerra. A situação estava ficando insuportável, mas não conseguimos ajuda de outros reinos, eles se fecharam para se salvarem. Eu não os condeno, Estel, mas foi duro saber que nós estávamos sozinhos. Os Vigilantes foram quem nos apoiaram, salvaram para ser mais sincero. Tivemos inúmeras baixas, o reino ficou em ruínas, antes que conseguíssemos trancar as criaturas nas montanhas. Por isso ir para lá é tão perigoso e está sob vigilância constante.
— Aconteceu alguma coisa com Solenni nessa época?
— É isso que vou lhe falar agora. Esses monstros eram mais parecidos com demônios do que qualquer outra coisa, pois eram maldosos, astutos. Enviaram sobre nós uma nuvem de poeira vermelha, que nos enfraqueceu e adoeceu. Fomos impedidos de dormir, pois quem sucumbia ao sono era assaltado por pesadelos até enlouquecer. Com outros aconteceu algo muito pior: foram possuídos. E foi isso que aconteceu com todo um batalhão que o pai de Solenni comandava. Os guerreiros invadiram a casa com o intuito claro de matar a família. O pai e a mãe fizeram de tudo para segurar os invasores enquanto a filha fugia. Ela felizmente não foi pegue, mas não pode deixar de assistir o que aconteceu com os guerreiros e seus pais. Os primeiros se deformaram, finalmente tomando a forma dos demônios que os possuíram; os segundos foram devorados vivos pelos primeiros. Eu e outros soldados chegamos naquele momento, mas não havia muito que ser feito. Matamos os monstros e em seguida procurei desesperado por Solenni. Não consegui conter a emoção quando vi minha neta escondida num espaço mínimo num armário de armas, tentando segurar uma espada, completamente em choque.
“Desde então Solenni tornou-se uma criança séria, fechada, quase não falava. Tinha pesadelos constantes com o ocorrido. Dedicou-se viciadamente aos treinos com a espada, culpava-se pela morte dos pais, e ainda hoje o faz. Por ter sobrevivido a um massacre, as pessoas de Espártaca consideram Solenni um sinal de mau agouro, de morte. Não querem muito se aproximar dela. Isso a deixou mais deprimida e isolada, e mesmo que não demonstrasse, eu sabia que ela sofria com isso. Estava solitária. Eu não consegui suprir essa necessidade dela e me recrimino muito por isso, minhas obrigações como um dos Cinco Grandes me tirou da minha neta. Ela literalmente se criou só. “
“Alguns anos mais tarde, quando ela tinha 14 anos, Solenni criou uma inesperada e ótima amizade com meu escudeiro antes de Caésar, Rômulus. Um rapaz muito expansivo e com muita necessidade de falar, e queria que os outros falassem também. Ele tinha 17 anos. Venceu minha neta pela insistência. Ela estava começando a abrir a tranca que ela mesma havia posto.”
“Só havia uma coisa que eu recriminava em Rômulus: sua necessidade de vingança pela perda da família na guerra. Mesmo não sabendo em quem, ou no quê fazer isso, era o objetivo da vida dele. E tal objetivo, infelizmente, acabou virando o da minha neta também.”
“Nessa época as aracnéias começaram a aparecer na floresta. Rômulus se preparava para se juntar as patrulhas que iam para lá. Dizia haver um responsável por ela estarem ali, o mesmo que enchera Espártaca de demônios. Num certo dia, ele soube que uma patrulha morrera na floresta por conta dos monstros, e um dos guerreiros dessa patrulha era um grande amigo seu. Seu desejo de vingança tornou-se insuportável e ele queria sair daqui. Eu o proibi, e não há desonra maior para um escudeiro do que desobedecer a seu mestre. Mas ele não se importou, armou-se e foi para a floresta. Solenni ficou com medo que algo lhe acontecesse e, então, seguiu-o. Quando descobri o que os dois haviam feito, corri para a Floresta Elísia com vários patrulheiros. Achei-os no lado norte da floresta cercados por um bando enorme dos monstros. Foi uma luta violenta, mas vencemos. Ao final, Solenni estava muito ferida, olhando em choque a aracnéia fugir com seu amigo na boca.”
“Tudo que Solenni havia melhorado com a presença de Rômulus, esvaziou-se com a morte. A única coisa que ficou nela foi a culpa pela morte do amigo e a frustração de não haver nada nem ninguém em que ela pudesse descontar sua raiva e tristeza. A não ser que se considere Eternia, o Sábio-Rei ou a Coroa Negra como culpados.”
“Quando um ano se passou, Solenni resolveu sair de Espártaca, queria ver o mundo. Ou esquecer tudo que passou aqui. Eu não podia impedi-la, era maior de idade, sã e saudável, além de Mestra. Toda vez que a via voltar era um alívio, mas também uma grande preocupação. Solenni podia estar perto de mim, mas não estava bem. Com a cabeça vazia, os pensamentos e os sonhos ruins voltavam. E ela logo partia de novo. Foram dois anos nessas idas e vindas.”
— Esses sonhos, incluem os que ela teve comigo?
— Sim, mas ela só sonhou com você mesmo um dia antes de encontrá-lo. Mas foi por causa desse sonho que ela partiu da última vez, alguém precisava de ajuda e ela queria achar esse alguém.
— E aí ela encontrou aquele canalha.
— Quanto a esse tipo de situação eu não me preocupo. Solenni sabe como se defender e tenho pena daqueles que tentam enganá-la. Digo a você que ela foi muito bondosa em cortar apenas a mão de alguém que tentou violentá-la.
— !! ... Mas...porque me contou isso, mestre?
— Por que eu quero sua ajuda, Estel. Solenni finalmente encontrou outra pessoa que a fizesse reagir, assim como Rômulus.
— Mas eu não sou ele...
— Exatamente por isso. Desde que tudo isso aconteceu Solenni não deixou que mais ninguém se aproximasse dela ao ponto de se tornar um amigo. Ela acha que assim vai evitar uma nova perda. Mas com isso, ela está indo contra a própria vontade de não querer se sentir mais solitária. Todas as lembranças e sentimentos ruins que ela guarda estão brigando com a vontade dela de esquecer, e essa vontade apareceu há três meses.
— ?!
— Isso mesmo, você. E eu sei disso, perdoe-me de antemão, porque ouvi a conversa que vocês dois tiveram mais cedo. Não estava em nossos planos contar a você que o estávamos observando, mas ela quis ser sincera. Queria contar também tudo o que aconteceu a ela, queria saber se mesmo com todo esse passado infeliz você continuaria a ser amigo dela, e não considerá-la um mau agouro.
— Mas eu estraguei tudo...desculpa.
—Não é a mim que você deve se desculpar, Estel. Solenni só disse aquilo para você para alertá-lo, para que não fizesse o mesmo que ela, fugir das coisas ruins, trancar-se em si mesmo. Ela tem um carinho muito grande por você e, eu sei, que você também tem por ela. Vi como vocês dois ficaram no dia em que ela partiu para passar uma semana longe. Solenni só disse a verdade de um modo um tanto rude, mas minha neta não cresceu vendo o que é delicado.
— E porque acha que fui eu mesmo que a fiz mudar?
— Porque você sempre esteve com ela. Eu, como disse que foi antes e ainda hoje é, não posso ficar o todo tempo ao lado dela, mesmo que seja meu desejo. Caésar a trata com deferência, mas só isso. Você, mesmo que estivesse aqui só para estudar, sempre estava com ela, conversando com ela. Isso fez toda a diferença.
— E tem algo a mais que eu possa fazer? O senhor quer que eu faça alguma coisa?
— Estel, responda-me com toda a sua sinceridade. Você gosta da minha neta? Não sei como os jovens falam, então serei direto, você a ama? Seja em que sentido for esse amor: irmão, amigo, ou mais que isso, ou tudo isso.
Estel se surpreendeu com a pergunta. Será que todo espártaco era assim tão direto, ou era só a família de Solenni? Tentou se concentrar numa resposta ignorando o constrangimento que fazia bolhas de ar papocarem em seu estômago. Então respondeu, nervoso:
— Sim...no sentido “mais que isso”...ou tudo isso. É, acho que é isso...
— Então faça o que fez até agora, fique perto dela. Ainda mais agora que ambos vão precisar muito um do outro.— Leônidas levantou-se devagar, como alguém que precisasse fazer muito esforço nesse movimento; seu rosto finalmente exibia a idade que tinha, mas o sorriso que atravessava seu rosto tornavam esses sinais irrelevantes. — Bom, rapaz,se me der licença, vou me recolher. Você tirou um peso enorme das minhas costas. Fiquei muito feliz com o que acabei de saber, e mais feliz ainda pelo fato de ser você, Estel, que é uma ótima pessoa. Pode ir falar com Solenni, mas já é tarde, vocês não fiquem muito tempo lá fora, pois têm muito que fazer amanhã.
Estel ficou muito vermelho com o comentário, dito tão normalmente como se ele e Solenni já namorassem há anos, mas uma cócega de empolgação ao pensar nisso remexeu sua barriga. Ele viu o mestre subir as escadas pesadamente, porém parecendo bem aliviado. O garoto estava grudado na cadeira de tensão, tanto pela história que acabara de ouvir quanto pelo o que confessara a si mesmo. Dois sentimentos se digladiavam: o de ir até lá com a cara e a coragem, e o de ficar com a sua vergonha.
Levantou-se da cadeira e não pensou mais, faria isso quando estivesse com ela. Contudo Solenni não estava mais lá. Há quanto tempo tinha ido embora? Será que ouvira a conversa? ... Não, ninguém passou por eles na sala. A noite estava fria e ele muito cansado. Subiu sem falar nada, sem namorar ninguém, a vergonha tomando o lugar do impulso. Não havia outra coisa a fazer senão dormir.
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