Sexto Escrito – Primeiro caminho
No dia seguinte, Estel já acordara sabendo que Solenni não estava em casa. Fora chamada para escoltar mais uma leva de mantimentos para o entreposto das Montanhas Rubras. Foram três dias de espera, frustração e ansiedade. Quando ela finalmente voltou, já era final da noite da véspera da partida deles. Não houve tempo para conversas, havia muito que preparar.
Quando acordou pela manhã, bem cedo, lembrou que logo iria embora de Espártaca e que passara a noite sonhando com cristais verdes.
Ao descer, encontrou-se com Solenni e Mestre Leônidas à mesa com alguns pacotes.
— Bom dia, Estel! — anunciou o homem, com muita alegria. — Venha, discípulo, queremos presenteá-lo.
— Hã?! — espantou-se Estel, arregalando os olhos sonolentos. — Bom dia, Mestre. Bom dia, Solenni. Hoje não é meu aniversário, então por que isso?
— É costume em Espártaca os mestres presentearem seus discípulos ao término de um treinamento. — explicou Solenni. A voz dela estava calma e sua expressão séria como sempre. Ela estava bem. Estel aliviou-se por dentro. — Como o seu acaba hoje, queremos dar-lhe algumas coisas.
Estel então abriu os pacotes. Dentro do primeiro, vários tipos de roupas e dois pares de sandálias de couro reforçado.
— Nossa, obrigado. — falou o garoto, sorrindo. —Estou merecendo tanta coisa assim?
— Se você acha que necessidade pode ser chamada de merecimento... — disse Leônidas, divertido. — Estava na hora de você ter algumas roupas suas, de verdade, garoto, Caésar não podia ficar nu para você levar as roupas dele.
Estel riu. Abriu o segundo pacote. Havia nele outras vestes, mas estas eram mais elaboradas, resistentes. Em cima delas um colete de couro com um reforço alto no ombro direito e outro na cintura feita com dois grossos e largos cintos com fechos quadrados de metal. Do lado, um bracelete comprido de metal. E também uma braçadeira, equipamento que Estel usava em seus treinos com o escudo, era um tipo de armadura especialmente feita para o braço, no caso dele, para o esquerdo. Começava com uma grande ombreira redonda, seguindo com proteções interligadas para o braço, o cotovelo, o antebraço, uma mais forte no pulso, e, por fim, para a mão. A braçadeira que ganhara era incrível, feita de um couro muito duro e revestida com argolas metálicas, mas leve e flexível.
— Ei, bem que eu podia ter ganhado essa antes, não? — indagou Estel, brincando.
— Ora, rapaz, não diga blasfêmias! — exclamou o mestre, gargalhando. — Esses meses foram para você provar que merecia aquela braçadeira velha com a qual treinava. Só que não gosto que levem minhas coisas, por isso, resolvi dar-lhe esta. Agora vá se vestir, quero ver se fica bem de defensor espártaco.
— “E fica mesmo.” — pensou Solenni, tentando manter-se indiferente diante da figura de Estel.
— Ficou perfeito! — disse o mestre, dando uma sonora tapa nas costas de Estel, que, mesmo armadurado, sentiu o baque. Ficou pensando se a armadura era boa mesmo ou se o mestre é quem era fora do comum. A segunda opção, com certeza... — E é bom que você esteja vestindo isso toda vez que por o pé na estrada, rapaz, ela está aí para fazer você sentir a menor dor possível.
— Obrigado, Mestre. — falou Estel, saudando o outro à moda espártaca. — E obrigado a você também, Solenni. Se não fosse por vocês eu estaria morto uma hora dessas.
— É verdade. —confirmou Solenni. Estel riu. — Só está faltando uma coisa. Sente-se, Estel.
E o garoto o fez. Ele viu que Solenni retirou dos cabelos uma das fitas que os amarravam e usou para amarrar os dele.
— Ah, valeu! Já não agüentava mais eles caindo na minha cara. — disse Estel, que na verdade só tinha notado naquele instante o tamanho dos cabelos, mechas desarrumadas sobre os ombros e cada vez mais negras. — Era tanto o que fazer que acabei me esquecendo disso.
— Não há de quê. — respondeu a outra.
Estel espantou- se ao ver Solenni lhe dar um sorriso, mas um sorriso aberto e satisfeito, muito diferente do que ela comumente fazia. Ele queria que isso acontecesse mais vezes, era estranho, mas legal, sentir o coração dar várias cambalhotas... Estel só saiu do torpor quando Leônidas lhe deu outra tapa nas costas, dizendo que só deixassem para namorar num lugar seguro. O garoto engasgou-se, contudo, felizmente (ou não), percebeu que Solenni não estava mais ali para ouvir o que o avô dissera.
No meio da manhã, Solenni (com a velha expressão) e Estel estavam prontos. O dia estava quente e prometia ficar assim até depois do cair da noite. Despediram-se de Caésar na casa mesmo, Leônidas é que fazia questão de acompanhá-los até o grande portão sul. Algumas pessoas que passavam saudaram o mestre e sua neta, mas todos comentavam a presença do jovem estranho preparado para viajar, juntamente com Solenni.
— É aqui que eu os deixo, meus filhos. — disse Leônidas, abraçando cada um. —Cuidem-se e protejam um ao outro, será mais que necessário a união entre vocês. Estel, saiba, a força real de um espártaco está no guerreiro ao lado dele.
— Então posso ficar tranqüilo. — disse Estel, olhando para Solenni. Ela de repente ficou muito interessada nas flâmulas esvoaçantes do portão.
—Ei, folgado, não dependa dela para fazer alguma coisa. Se eu souber que você não a protegeu...
— O mestre pode me espancar.
—Não me dê idéias, Estel. Boa sorte para você, rapaz.
— Obrigado, Mestre.
— Até a volta, minha filha.
— Até a volta, meu avô. — falou Solenni, dando um beijo na testa de Leônidas
— No dia que ganhar um desses, Estel, sinta-se o homem mais afortunado do mundo.
E o espártaco foi-se, deixando os dois partirem um tanto constrangidos.
A idéia era atravessar a estrada sul da Floresta Elísia (a qual haviam chegado a Espártaca seis meses atrás) e dali seguir o caminho que o escudo lhes dissesse. A espada de Solenni não indicaria direções porque a única litta da espártaca já estava num local definido. Agora o porquê disso ela não sabia.
— É impressão minha, ou aqui está mais frio? — comentou Estel, pouco tempo depois de entrarem na floresta. — E mais escuro?
— Não é impressão. — respondeu Solenni, olhando constantemente para os lados — A floresta está realmente assim, em algumas partes até pior, por causa das aracnéias. Onde elas se estabelecem, espalham uma substância que deixa o ambiente assim, escuro, úmido e frio. Está sentindo o cheiro?
— Sim, e é horrível.
— Com esse clima, fungos nocivos estão se proliferando, por isso o cheiro. Se continuar assim, o ar vai ficar venenoso demais para se respirar. Fique de olho, Estel, ataques estão mais fáceis de acontecer do que há seis meses.
Estel acenou com a cabeça. Porém a caminhada prosseguiu tranqüila, até demais para eles. No começo da noite chegaram ao limiar da floresta, onde a estrada terminava e se confundia com a grama. Estel dali podia ver o Templo do Escudo Vésper escondendo-se no céu escuro que avançava.
— Vamos nos afastar o mais que pudermos das árvores. — aconselhou Solenni. —Melhor evitar chamar a atenção das aracnéias.
Os dois seguiram para leste, até que as árvores ficassem relativamente distantes. As torres de Espártaca eram meras pontas cor de areia. Sentaram-se numa depressão gramada e acenderam uma pequena fogueira.
—Aqui deve ser seguro consultar o escudo. — disse Estel. — A luz não vai atrapalhar o sono de nenhuma aranha.
— Verdade. Mas pode afastá-las de vez também, elas não devem ter uma lembrança muito boa da sua arma. — comentou a espártaca. — Me diga a direção que a luz apontar que vou olhar no mapa.
O garoto fez como da primeira vez, concentrou-se na estrela central do escudo. E como da primeira vez, dela saiu uma seta de luz verde, que apontou para o leste.
— O que tem para lá? — perguntou Estel.
—Uma planície que segue até um bosque, e depois até uma faixa de morros de pedra. — explicou
a garota. — Até aí, nada de especial...eu acho.
— Solenni...
— Diga.
— Por que decidiu ir? Qual...o seu motivo?
— Poder voltar para casa.
—...?
— Quando estava no templo com Andrômeda, ela me perguntou a mesma coisa. Não queria que eu participasse de uma guerra pelo simples fato de que fui jogada nela por uma profecia. E eu respondi isto a ela. Eu poderia muito bem ficar ao lado do meu avô e me preocupar apenas com os problemas do meu reino, esperando que outros dessem um jeito em Eternia. Mas não suporto essa idéia. Digo, não sou tola dizendo que quero salvar o mundo inteiro. É pela vontade de ficar ao lado do meu avô que eu estou partindo. Não agüentaria ficar inerte, tendo uma segurança certa, mas momentânea... Se me é permitido correr riscos e, no final, não ter que me preocupar com mais nada, assim eu farei.
“Acho completamente injusto que a guarda de Eternia esteja nas mãos de tão poucas pessoas. Se todos usufruem de Eternia, todos deveriam cuidar dela. Claro, se os Vigilantes e nós fomos escolhidos, é porque temos algo a mais para fazer isso, mas não acho que deva ficar somente nas nossas costas ou nas deles.”
— Perseu me disse que há muito tempo atrás teve uma guerra que envolveu todo o mundo.
— Sim, mas porque os reinos não tiveram alternativa. Porque estava afetando demais a vida deles. Infelizmente ficamos acomodados com a proteção dos Vigilantes e do Sábio-Rei.
— Acha que vão fazer o mesmo conosco?
— Não, a exigência vai ser maior ainda. Todos conhecem a profecia. Mas, se bem, que ainda precisaremos provar que somos os verdadeiros regidos. Enganador por aí é o que não falta.
— É, todo mundo olhou desconfiado para o meu escudo.
— É, Estel, mas isso no final não importa muito para mim. Estou correndo riscos para salvar o mundo, a Eternia, onde meu avô, pessoas que eu conheço, lugares que eu gosto e até eu mesma estão, entende?
— Entendo. Solenni....desculpa por aquele dia, fui um idiota...você só disse a verdade.
— Tudo bem, Estel, eu aprendi a ser muito direta e isso às vezes machuca até a mim mesma. E você Estel, o que vai fazer?
— Depois desse tempo que passei aqui, vou acabar fazendo a mesma coisa que você, mais ou menos. Mas também tem a minha mãe... E eu quero saber o porquê de eu, uma pessoa que não tem nada haver com Eternia, ter sido chamado. Além do que, dar uma ajudazinha não dói...ou pelo menos eu acho, eu espero que não.
Solenni fez um sinal positivo com a cabeça e deu um discreto sorriso. Estel sentiu de novo a cambalhota.
Eles armaram as esteiras para se deitar, ficariam revezando na vigília. Solenni foi a primeira a dormir, não descansara muito depois da chegada da missão de escolta. Estel deitou-se também, mas para olhar para o céu azul-escuro pontilhado de estrelas. Havia uma delas, enorme e verde, que logo lhe chamou atenção. A Estrela Vésper. Lembrou-se do sonho, aquela estrela havia entrado na sua mão esquerda. A sensação de morno no corpo apareceu de novo, como no sonho. Naquele momento ele se sentiu tão calmo e seguro...aconchegado. Lembrou-se também das palavras do Sábio-Rei: Você nasceu sob a proteção de Vésper, a Estrela de Eternia. Mesmo que te encontres na escuridão, ela será tua guia. E acreditou naquelas palavras.
A noite passou tranqüila. Não fizeram o desjejum antes de sair, comeram já andando as glicosinãs que Solenni trouxera. O dia veio mais quente e seco que o anterior. O gigantesco tapete gramado que se estendia diante deles era pontilhado de pedras de vários tamanhos e solitárias árvores. Quando o sol estava tostando suas nucas, os jovens encontraram um riacho nas proximidades do bosque que Solenni mencionara ontem. O que foi um alívio para suas gargantas e cabeças. Não se demoraram muito ali, mas não se esqueceram de encher muitas garrafas com água. Caminhar no bosque foi um descanso para os pés que durou pouco para eles. O chão logo ficou pedregoso de novo.
Era fim de tarde. O céu dividia-se em amarelo, laranja, rosa e anil. Solenni olhou para o muro cinzento que crescia no horizonte.
— Ali estão os morros. — disse a espártaca. — Será que estamos na direção certa? Não é melhor consultarmos o escudo de novo?
— Não vai ser preciso. Vésper está muito brilhante. Nós estamos no caminho que ela ditou, sem erros. — respondeu Estel, numa certeza que espantou a outra e a ele mesmo. — Ei...fui eu mesmo quem disse isso?
Quanto mais eles chegavam perto dos morros de pedra, mais a sensação de segurança e certeza enchia Estel. Ele olhou para o céu. A estrela verde estava logo abaixo de um dos morros, o qual apresentava uma boca discreta.
— É ali. — apontou ele, sem medo.
— O que tem ali? — indagou Solenni.
— Uma litta.
A resposta saiu tão naturalmente, como se Estel sempre soubesse que ali estava uma de suas littas. O defensor estava estranhando essas intuições repentinas. Os jovens esconderam as mochilas atrás de alguns arbustos que cobriam os pés do morro de pedra. A subida para alcançar a boca não foi tão difícil, mas ela não tinha uma aparência muito convidativa. Eles não conseguiam enxergar nada da parte dentro.
— Me diz que a gente trouxe uma lanterna, vela, qualquer coisa assim. — falou Estel.
— Não, eu trouxe algo muito melhor. — respondeu Solenni.
A garota retirou a espada e começou a entrar na caverna com a arma erguida sobre a cabeça. No segundo seguinte, a jóia central emitiu uma luz amarelo-ouro muito forte, parecia que estava incandescendo.
— É realmente isso é muito melhor. — concordou Estel, entrando na caverna também.
Com luz, eles tiveram idéia do caminho a frente. Há poucos passos da entrada descia uma garganta irregular. As pedras eram farpadas, o que tornou a descida complicada, apesar da profundidade da garganta ser pequena. Ao descer, eles divisaram um corredor longo e estreito, que seguia até a luz da espada não conseguir iluminar mais.
O silêncio ali era pesado como as pedras da parede e deixava os jovens completamente tensos. Estel ia à frente com o escudo erguido, mas, à medida que caminhava, mais tinha certeza de que não encontrariam nada...nada para chamar de normal. Aquela era a mesma sensação de quando entrara pela primeira vez na Floresta Elísia...e o que veio depois não fora agradável.
— Ei, veja! — sussurou Estel, assustando-se ao notar algo ao longe. — Está vendo aquela luz verde?
— Sim. — respondeu Solenni, esfregando os olhos. — Parece haver uma curva mais a frente, a luz deve estar vindo depois dela. Vamos devagar agora, no escuro.
A guerreira fez a luz de sua espada desaparecer como quem apaga uma vela. Eles caíram quase na escuridão plena. Os riscos de luz verde eram o que permitiam ver adiante. A tensão aumentava juntamente com a luminosidade. Fizeram a curva, prontos para que o mundo caísse sobre eles, contudo nada aconteceu.
Os regidos encontraram um lindíssimo salão de caverna onde, no lugar das pedras, havia cristais verdes de todos os tamanhos e formas. Eram deles que provinha a luz, que agora dominava o ambiente dando-lhe um aspecto etéreo.
— Que...fantástico! — disse Solenni, não conseguindo conter a expressão maravilhada. — Nunca vi tantas vespertritas juntas, e ainda mais tão puras assim!
— Vespertritas?! — indagou Estel, com os olhos perdidos nos belos cristais. — É o nome dessas pedras?
— Um dos mais belos, raros e cobiçados materiais de Eternia. Esse cristal é a coisa mais resistente do mundo, até mais que qualquer metal. Na sua forma mais pura, emite luz.
— São...incríveis.
— A vespertrita é um dos símbolos do Escudo. Sabe por que o desenho da estrela do seu escudo tem as pontas em forma de cristal? Isso remete a uma das histórias da criação de Eternia. Quando a Estrela Vésper nasceu, sua primeira luz foi tão intensa que transformou as pedras do chão e do subterrâneo em cristais. Por conta disso, muitos procuram pelo cristal na sua forma pura, pois acreditam que o poder da estrela está nele.
— Então isso quer dizer que esse lugar causaria uma guerra...
— Com toda certeza. Mas esse mundo de cristais é só uma prova que o que estávamos procurando está aqui mesmo. Olhe.
Estel virou seu olhar para onde a espártaca apontava. Numa das paredes do salão havia uma ligação de cristais do teto ao chão formando uma coluna irregular. No meio dela, um ponto muito escuro chamava atenção. Era uma esfera perfeita de cristal verde-escuro, quase negro. O garoto sentiu um estalo. Era uma litta, a sua litta.
— Estel, cuidado!! — exclamou Solenni.
O defensor virou-se bem a tempo de segurar uma marretada com seu escudo. Ela veio do braço de uma estranha criatura humanóide feita de vespertritas.
— Solenni, tem vários deles aqui! — disse Estel, observando pedaços das paredes e do teto ganharem vida.
Lutar então se tornou inevitável. As criaturas começaram a encher o salão, cercando-os. O som de metal batendo iniciou seu soar. Mesmo não tendo boca, um ruído cavernoso saía dos homens-cristal. E quando um deles caía no chão, dois vinham para substituí-lo. A espada de Solenni cortava o cristal dos monstros como manteiga, e o escudo de Estel esmigalhava onde impactava. Os dois sabiam que aquilo só era possível porque estavam com armas fora do comum, qualquer outra coisa quebraria ou entortaria se se encostasse à “pele” daquelas coisas. E também tinham consciência de que a luta não podia durar muito tempo, o cansaço e a falta de espaço alguma hora iam vencê-los.
— Estel, tente pegar logo aquela pedra! — disse Solenni, tendo que gritar para se sobressair aos urros das criaturas. — Não podemos ficar assim para sempre!
— E deixar você só no meio deles?! — exclamou Estel, indignado. — Para de querer agüentar tudo sozinha, Solenni, não melhora nada! Eu to aqui pra ajudar!
Solenni estancou por alguns segundos, mas foi apenas o tempo para pensar, voltando em seguida a cortar cabeças de cristal. Ela se aproximou de Estel, os dois ficando costas com costas.
— Desculpa. — disse ela, bem rapidamente, entre um golpe e outro. — Só quero sair logo daqui, não vai haver mais espaço se continuar desse jeito!
— Tudo bem. — continuou o outro, batendo também. — Eu sei que antes eu era um completo inútil, mas não é possível que agora eu não consiga te ajudar!
— Certo...a jóia não está muito longe. Vamos nos concentrar em derrubá-los ou impossibilitados, passar por cima mesmo, pegar a pedra e sair daqui! “Destruir” não está adiantando nada mesmo!
— Por mim, ótimo!
- Pronto?!
— Quando quiser!
— Agora!!
Segundos desenfreados seguiram-se. Estel e Solenni atropelaram os homens-cristal. Não os destruíam mais por completo, cortavam ou quebravam apenas partes específicas como cabeças, troncos ou pernas. As criaturas caíam umas sobre as outras, emaranhando-se, o que facilitava por alguns segundos os movimentos dos que lutavam. Estavam ficando mais próximos da jóia. Com as frontes já molhadas de suor, eles apertaram o passo e a força.
— Pegue a jóia! — pediu Solenni.
O garoto deu um grande empurrão nas criaturas e afastou-se, a contragosto, deixando Solenni segurando o combate. A litta estava cercada de pontas farpadas, obrigando Estel a arranhar a mão para tirá-la da coluna. Quando ela ficou segura em sua mão, o escuro quase negro saiu e deu lugar à mesma luz que iluminava todas as vespertritas do ambiente. O morno familiar invadiu-o mais uma vez.
Solenni, naquele instante, pronta para receber a onda de homens-cristal que voltava depois do empurrão, respirou espantada e aliviada. De repente, todos eles haviam parado. A garota usou sua espada para cutucar um deles, mas não houve reação.
— O que foi isso aqui?! – indagou Estel, ofegante, chegando ao lado da outra. — Você tá legal?
— Sim estou. — respondeu Solenni, incrédula. — Não sei o que houve...quem sabe ativamos as defesas que cercavam a joia quando entramos aqui. Conseguiu?
– Sim — o garoto mostrou a esfera brilhante. – Será que quando tirei a litta eles desligaram?
– Pelo visto, sim. Mas é melhor não ficarmos aqui para descobrir. Pode acontecer...
Estel e Solenni pararam a conversa ao ouvirem grandes estalos. Das paredes, teto e das criaturas paralisadas, nasceram enormes estacas de cristal. E destas, com outro estrondo, nasceram outras.
—...alguma coisa. – completou Solenni, tensa. — Eu e minha boca.
– Deixa ela pra lá, vamos sair daqui! — falou Estel, ansioso, vendo o lugar diminuir cada vez mais.
Eles saíram em disparada. Cada novo passo era um estalo que os assustava. Pouco antes da saída, Estel e Solenni foram arremessados ao chão por conta de um muro de cristais que espocara na frente deles. Levantaram-se tão rápido quanto caíram, contudo a trilha estava bloqueada. Solenni atacou o muro com toda força, mas conseguindo apenas uma forte dor no pulso e um retinir fino da sua espada. Estel tentou também, não havendo muita diferença. Ele estava no auge da tensão, mais um pouco e seriam espetados e esmagados. A qualquer momento poderia haver mais um estalo, o último estalo para eles. Solenni olhava para ele tão tensa quanto, olhava para os lados em busca de uma saída que não existia. Agonia. Não queria morrer! A parede tremia, iria espocar! Estava com medo, o que poderia fazer?!! DROGA!! O QUE ELE IA FAZER!?!? O garoto sentiu ânsia de vômito. Seria ridículo aquilo acontecer agora, mas alguma coisa queria sair! Abriu a boca:
— Sxildo Verda!! — gritou.
Outro estrondo aconteceu. Dessa vez não era o de cristais nascendo, e de sim, sendo triturados. Uma bolha verde com aspecto e cor verde como vidro de garrafa encobriu Estel e Solenni. O primeiro estava espantado com o que fizera; a segunda, com o que via.
— Como...como fez isso?!! — indagou a espártaca.
— Sei lá! — disse o outro, arfando, mas sorrindo. — Mas salvou nossas vidas!
— Eu sei, mas temos que sair daqui! Consegue se mexer?
Estel tentou andar e conseguiu. Não era a coisa mais fácil do mundo, era como carregar os jarros de Mestre Leônidas nas costas e nos braços. Solenni ouviu o comentário e soube, tinham pouco tempo. Devagar eles prosseguiram, vendo os cristais se espatifarem ao entrar em contato com a cúpula verde. Na parte do corredor a coisa complicou um pouco. Mesmo a proteção de Estel sendo flexível, moldando-se ao espaço, a onda de cristais tornou-se mais violenta e pesada. O defensor lutou contra o peso, erguendo o escudo. Era como conseguia se concentrar na proteção de vidro para que não se desfizesse, sentia-a como uma projeção da sua arma. Aquilo era a garantia de vida deles.
— Finalmente! O fosso! — exclamou Solenni, mais aliviada, olhando para cima. — Es..Estel!!
A espártaca virou-se bem a tempo de apoiar o defensor, o qual exibia um rosto pálido e exausto.
— Louco! Porque não disse que estava se sentindo mal?! — questionou ela, aturdida.
— Por que se eu falasse, até eu não agüentaria mais e a gente ia morrer. — respondeu o outro, fracamente. — Eu não quero morrer e muito menos quero que você morra.
— Então continue assim, vou nos tirar daqui. Mantenha o escudo erguido, o resto é comigo.
Solenni apoiou Estel no ombro e prendeu uma das mãos no cinturão da armadura dele. Com a outra, iniciou uma escalada contra o tempo. Solenni rasgou as mãos nas pedras, limpas de vespertritas pelo escudo, contudo conseguiu subir e arrastar o defensor para fora da caverna. O escudo de vidro verde se desfez. As vespertritas avançaram além da boca da caverna, assustando Solenni, mas ela viu que logo em seguida os cristais viraram pedra e pararam de crescer.
A garota soltou um longo suspiro cansado e voltou sua atenção para Estel. Recostou-o na parede de pedra e sentou-se ao lado e diante dele. Ele respirava mais leve agora, apesar das faces ainda muito pálidas e suadas.
— Solenni...? — chamou ele, lutando para manter os olhos abertos. — Tá...tá tudo bem...?
– Sim, está. Não fale, apenas respire. — disse a outra, que escondeu rapidamente as mãos sangrentas e trêmulas de dor.
Tarde demais, pingos escarlates no chão denunciaram o ferimento para Estel, que abriu os olhos outra vez.
— Não se preocupe, o importante é que você nos tirou dali. Eu...
Solenni espantou-se, mas não recuou quando Estel a abraçou. Ele tremia dos pés a cabeça.
— Está tudo bem agora, Estel. — disse ela, retribuindo ao aperto como podia sem as mãos, sua voz calma. — Está tudo bem.
A espártaca ganhou outro abraço apertado de alívio, antes de sentir Estel desmaiar em seu ombro.
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