Sétimo Escrito – Em Magussíria
Era uma praia extensa, com areias finas, mar de ondas suaves que constantemente batiam nas pedras arredondadas da parte rasa. O céu estava riscado por etéreas nuvens e palmeiras balançavam ao vento. Aquele seria um belo lugar se não fosse um único detalhe: era todo como num filme antigo, todo em tons de cinza.
Estel achou-se nesse lugar e, não sabia como, ao contrário das coisas ao redor, estava colorido. Vestia-se de branco com os pés descalços. A areia era morna e o vento refrescante trazia a maresia para suas narinas. Aquele lugar não lhe era estranho...mas não lembrava de quando estivera nele, ou mesmo se esteve algum dia.
Observando mais a frente, viu um rústico porto de pedra carcomido pelas ondas e reconstruído pelos corais e algas. Havia alguém no porto. Uma mulher, colorida e trajando roupas brancas também. Estava absorta olhando para o mar, seria confundida com uma estátua não fossem seus cabelos e roupas ao vento.
Estel queria chamá-la, conhecia-a, mas não lembrava o nome. Mas como?! Ele nunca a vira na vida! Será...?
— Estel, está tudo bem?
Estel abriu os olhos e se deu conta de tudo diferente ao redor ainda meio tonto. Havia sido um sonho. Estava deitado sob a sombra de uma árvore ao pé dos morros de pedra. Pela claridade já era manhã alta. Solenni, ao seu lado, segurava-lhe o braço e a cabeça.
— Estel, tá tudo bem? — perguntou ela, pela segunda vez, numa voz preocupada.
— Tá...eu acho. — respondeu o outro, sentando-se e esfregando o rosto. — O que houve?
— Você começou a falar, não entendi o que era, e começou a esticar a mão, como se quisesse pegar alguma coisa. Depois de um dia inteiro dormindo, pensei que estivesse se sentindo mal.
— Hãã?! Um dia inteiro dormindo?! Como?!
— Não lembra o que aconteceu?
— Sim...mas não pensei que fosse ficar tão baqueado por causa... Ei! Como estão suas mãos?!
— Quase cicatrizadas. — a espártaca mostrou as mãos enfaixadas. — Ainda um pouco doloridas, mas bem.
—...consegue mexer?
— Sim. Como eu disse, só um pouco doloridas ainda.
—...
— Não se culpe, Estel, você não foi o responsável por isso. Aliás, se não fosse por você, não seriam somente minhas mãos que estariam machucadas. Salvou nossas vidas, era disso que devia lembrar.
—...
— Está com fome?
— Muita.
Minutos depois, uma refeição foi preparada e consumida.
— O que aconteceu depois que eu “dormi”? — indagou Estel, com a boca entupida.
— Eu o trouxe para cá, onde deixamos nossas mochilas. — respondeu a outra. — Felizmente você não tinha nada além de exaustão, então deixei que dormisse. Nada, nem ninguém, apareceu. Aproveitei para nos acharmos.
Solenni abriu o mapa, de papel velho e tinta verde desgastada, que usara dias antes. Ele tomava Espártaca como ponto central.
— Estamos aqui. — disse ela, apontando para pequenos triângulos desenhados. — Se continuarmos indo para o leste, chegaremos a Magussíria, o reino mais próximo de nós agora. Mas vai depender do que o escudo nos disser.
— Falando nele, onde está?!
— Junto das nossas mochilas. Está muito diferente, dormiu redondo e acordou daquele jeito.
O garoto só entendeu o que a outra dissera quando olhou para a arma...era impressão dele ou o escudo crescera?!
— Meu deus! — exclamou Estel admirado, colocando o escudo no braço. A arma agora cobria da sua cabeça até o meio da perna.
E não somente isso. O escudo de Estel mudara de forma e aparência também. Na forma, não era mais circular, transformara-se numa ponta de flecha ligeiramente convexa com as pontas arredondadas. Na aparência, toda a parte verde da versão anterior mudou para cristal, para vespertrita. As bordas de metal e a estrela do meio foram a únicas coisas que permaneceram, apenas aumentando na proporção do novo escudo.
—Ei, onde está a litta?! — lembrou-se Estel.
— Acho que foi ela quem modificou o escudo. Quando você desmaiou, soltou a litta que estava na sua mão, daí eu a coloquei do lado do escudo. No dia seguinte ele ficou assim e a litta havia desaparecido. — explicou Solenni, pensativa. — Estel, o escudo não está pesado?
— Não, está mais leve por incrível que pareça. Nem acredito como escapamos dali...
— Você sabia o que estava fazendo?
— De jeito nenhum! Eu estava tão apavorado que pensei que fosse vomitar...mas saiu aquela frase estranha... A litta estava queimando na minha mão... Foi muito bizarro.
— Mas salvou a gente.
— É...deixa eu ver para onde vamos agora.
Mal Estel ergueu o escudo e a seta de luz verde apareceu, continuando a apontar para o leste.
— Acho que ele está com pressa. — comentou o defensor.
Instantes depois Estel e Solenni estavam andando. Resolveram atravessar os morros, ao invés de contorná-los, encontrando uma subida suave que do outro lado se transformava numa rampa gramada. A planície continuava do outro lado, mas agora aqui e acolá os garotos viam pedras perfeitamente ovais da altura das árvores. Aproximando-se de uma destas, Estel viu que nela estava esculpida a figura de um homem com cabeça de lobo virado para o leste.
— Solenni, e essas pedras?! — indagou o garoto, curioso. — Você sabe o que é? E quem fez, foram homens-lobo mesmo?
— Sim. Mas quem as fez foram Lupinaras. — disse a jovem. — Eles vivem nas savanas, em grandes tribos bem longe daqui. Já me encontrei com um grupo deles, são muito gentis com viajantes, acreditam que dão boa sorte. Mas...se estão trazendo essas pedras até aqui, é porque a situação deles piorou. Esses obeliscos são a representação do que eles chamam de espíritos ancestrais. Eles dizem que os espíritos têm contato direto com o Sábio-Rei e a Coroa Branca, e pedem para os vivos uma boa caça, colheita farta, saúde e etc. Eles estão tendo que vir até muito longe de casa para tentar resolver as coisas, o que eles odeiam. Ah, Estel, e uma coisa, não diga que eles são “homens-lobo”, ele preferem a parte lobo que a parte homem, por isso, chame-os de Lupinaras mesmo. Quer dizer “corpo de homem, coração de lobo”.
Estel respondeu um “certo” muito distante, estava pensando no fato dos Lupinaras gostarem mais de serem lobos do que homens. Pelo o que estavam passando? Fome? Doenças? Ou quem sabe os dois e outras coisas mais... De certa forma parecia que tinha voltado para seu mundo e estava assistindo ao noticiário... Os mesmos problemas surgidos de formas diferentes. Eternia era uma Terra com nome estranho.
Ao meio-dia, Estel e Solenni recostaram-se numa das pedras, escondendo-se do sol abrasador. A espártaca abriu o mapa mais uma vez.
— Estamos mais menos aqui. — falou. — Essa planície é longa, levaremos uns quatro dias para atravessá-la, isso parando apenas para comer e dormir. Todo dia antes de partir vamos consultar o escudo. Se continuarmos nessa direção vamos chegar aqui, no Lago Náiade, o que seria ótimo já que nossas garrafas de água não vão durar muito.
— Opa! Foi mal...tô com sede. — defendeu-se Estel, sem jeito, que percebeu que bebera uma garrafa de água quase por inteiro. —Aqui faz um baita calor! Quer um gole?
Levantaram acampamento e seguiram viagem sem esperar que o sol baixasse. O defensor colocou o escudo sobre a cabeça e assim conseguiu uma sombra permanente. Bem que ele queria oferecê-la também para Solenni, mas além de realmente não haver espaço, ele não sabia como fazer o convite sem gaguejar. Fora que ela não parecia tão incomodada com o calor e a luz. Então ficou na dele.
Os outros dias não trouxeram nenhuma novidade, seja no calor ou na paisagem. E para a alegria deles, o escudo os levou para onde queriam e precisavam.
— Ali está. — apontou Solenni, para uma enorme superfície espelhada mais adiante. — O Lago Náiade, um dos maiores de Eternia.
—Muito bonito... — admirou-se Estel.
Bonito e, principalmente, confortável. O lago trazia para os jovens tudo que eles mais queriam: sombra e água, muita água fresca. Além também de comida e uma brisa constante que dissipava o calor.
— Vamos passar o resto do dia aqui. — declarou Solenni, num raro momento de total relaxamento, esticando as pernas ao se sentar embaixo de uma árvore a beira-rio. — Mas amanhã acordamos cedo para continuar.
— Eu não acho ruim. — falou Estel, largando-se preguiçosamente no chão fofo e de grama macia.
— Acho vou passar um tempo de molho dentro do lago... Ei, Solenni, você não se importa...
O garoto olhou para trás e parou de falar. Solenni havia caído no sono.
— “Deve ser a primeira vez que ela descansa de verdade depois daquela noite.” — pensou Estel, aproximando-se. — “Eu devo estar dando trabalho...”
Estel sentou-se silenciosamente ao lado da outra e pôs-se a observá-la. A expressão séria de Solenni permanecia também quando ela dormia, como se, até inconscientemente, continuasse a vigiar tudo ao redor. Mas, pensando bem, era a seriedade que a deixava bonita. Lembrou-se da conversa com Mestre Leônidas...lembrou-se do sorriso dela.
— O que você diria se eu falasse que...gosto de você? — soltou Estel, sério, tão baixinho que parecia estar falando mais para ele mesmo. — Não sei como se fala por aqui...será que é namorar também? Mas...eu nem sou daqui, você não ia querer arriscar, não é? Deixa pra lá, Solenni, falei besteira.
Estel acariciou de leve a mão enfaixada de Solenni. Voltou para onde estava e largou-se novo no chão. Aquele sentimento estava frustrando-o, não sabia o que fazer. Apesar do que o mestre disse, o receio de falar com ela era maior. Além de que, quando tudo terminasse, Estel voltaria para Terra. E aí?! Como ia ficar? Nunca mais a veria? Não teria escolha? Por isso não podia fazer o que queria fazer? Aquelas dúvidas estavam lhe dando dor de cabeça e sono.
Dormiu.
— Eu estava esperando por você. — falou uma voz suave e triste. — Estou esperando há muito tempo o dia em que finalmente você me encontraria. Não tema, sua estrela o guiará. Eu preciso muito da sua ajuda...ele até mais do que eu. Mas, por hora, descanse, você merece. Acalme-se e continue, tudo pelo que você anseia,virá.
O som do mar dominava o ambiente. A mulher, que estava no porto de pedra virou-se, porém outra imagem tomou o lugar do seu rosto. Arcos de pedra movimentavam-se onduladamente, não possuíam começo nem fim. Riscos amarelos no escuro começaram a se abrir. E mais uma vez, a lótus desmanchava-se em sangue... Estel! Estel!
O garoto abriu os olhos, zonzo.
—Oi...oi, Solenni! — espantou-se Estel, ao ver a outra muito próxima. — Faz tempo que está acordada?
— Não. — respondeu ela. — Vim ver como você estava. Sonhando de novo, não era?
— É...sempre a mesma coisa. Estou numa praia cinza e, quando acho que vou conseguir ver o rosto da mulher no porto, surgem outras imagens sem sentido. Os riscos no escuro, a flor que vira sangue, e agora arcos de pedra que se mexem como uma cobra. E você, como está?
— Bem...por que a pergunta?
— Porque eu vi o jeito que você despencou de sono ali. Solenni, não precisa chegar a esse ponto por minha causa. Eu já disse que estou aqui para ajudar e não para dar mais trabalho a você. Não quero ver você assim de novo.
Mesmo na luz fraca do entardecer Estel notou as faces avermelhadas da outra. Ela virou o rosto e disse:
— Não se preocupe, se me esforcei a esse ponto foi porque eu quis. Eu também não quero ver você mal, Estel, mas se ficarmos pedindo um ao outro para fazer ou não fazer alguma coisa nunca chegaremos num acordo. Fazemos como meu avô nos aconselhou. Concorda?
— Claro, eu confio em você plenamente.
Estel deu um franco sorriso para Solenni, que lhe deu as costas e saiu rapidamente.
— Vamosatrásdojantar. — disse ela, de uma vez só.
Estel deu uma risadinha baixa, acabava de descobrir uma coisa engraçada na espártaca: no auge da vergonha, ela ficava com as orelhas da cor dos cabelos.
A refeição àquela noite foi farta. Solenni mostrou a Estel como caçar peixes usando um galho talhado de arpão, e, claro, a garota foi sensacionalmente melhor que ele. Ela também mostrou as coisas que eram comestíveis ali, como cogumelos, frutas a até algumas flores. De uma dessas flores, uma enorme e vermelha que crescia na beira da água, Solenni tirou bolinhas amarelas e gelatinosas que cresciam no centro. Fez com elas um suco que lembrou muito a Estel uma laranjada. Ela disse servir também como um ótimo anti-inflamatório.
— Solenni, você também continua a ter sonhos estranhos? — indagou o defensor, pensativo.
— Sim, mas é apenas um. Não vejo tantas coisas como você. — respondeu ela, sincera. — Agora vejo um oásis...e ouço a voz de alguém me chamando lá, a voz de um homem. Nunca chego perto o suficiente para ver o rosto dele. Está preocupado com alguma coisa que sonhou?
— Com o que poderia me preocupar, não tem sentido no que sonho! Mas não sei se eles tivessem, seria melhor, meu primeiro sonho teve “sentido”, só que eu não entendi nada e, no fim, tive que esperar acontecer.
— Então faça isso, deixe as coisas acontecerem. Melhor do que ficar com a expectativa de uma coisa que você nem sabe o que é.
— Verdade...mas eu espero que seja algo bom, muito bom. Não agüento ficar esperando muito tempo, já bastaram esses nove anos sonhando a mesma coisa.
Depois do jantar, Solenni e Estel deixaram tudo pronto para a partida de manhã. A garota retirou as ataduras das mãos, deixando o outro mais aliviado, os cortes estavam praticamente fechados.
Naquela noite, excepcionalmente, ninguém ficaria de guarda, contudo a fogueira ficaria seguramente acesa. Solenni logo caiu no sono outra vez sob o olhar protetor de Estel, que também observou de novo a Estrela Vésper antes de adormecer. Queria muito que as palavras que ouvira no sonho fossem verdade.
A manhã veio muito fria e com fios de névoa. O defensor acordou com um cheiro intenso e cítrico que invadiu suas narinas.
— Bom dia. — disse Estel, soltando um enorme bocejo. — Ei, tá tudo legal com você?
— Tá, tirando o frio. — respondeu Solenni, sentada perto da fogueira enrolada em seu cobertor. Ela espirrou três vezes.
Estel levantou e colocou o seu cobertor sobre a espártaca.
— Espero que ajude. — disse.
— Muito. Quer um pouco? — falou a outra, oferecendo sua caneca fumegante.
— O que é isso?
— Chá de Solenni.
— Hãã?!
— Lembra árvore de flores amarelas do jardim? Pois é, a flores amarelas se chamam solennis. O chá que se faz com elas é a única coisa que me esquenta em dias assim.
A guerreira colocou em outra caneca um pouco de um líquido ocre-claro fumegante. Estel bebeu-o. Era muito gostoso, mas indiscutivelmente forte. Era como uma mistura de todas as frutas cítricas que Estel conhecia.
— Ei, esse negócio esquenta mesmo. — comentou o garoto, sentindo agora o vento gelado da manhã como uma brisa fresca.
— Consulte novamente o escudo, Estel. Vamos confirmar pela última vez se teremos que entrar em Magussíria. — pediu Solenni.
O defensor o fez e eles tiveram a confirmação. Colocaram as mochilas nas costas e saíram.
— É, está tudo saindo como a gente pensou. — disse Estel.
— Até agora, sim. — contrapôs a outra. —Mas Magussíria é tão grande quanto Espártaca, vai ser complicado achar uma litta ou regido lá.
– Ele pode até ter sonhado com você ou com nós dois, mas e se ele não acreditar? E se ele não souber quem somos nós?
E a discussão continuou até que as possibilidades fossem tantas, que eles decidiram chegar primeiro e pensar depois.
As nuvens cinzentas do céu se desmancharam numa chuva fina e rápida, logo depois a claridade voltou a reinar sobre as coisas. Estel descobriu que Magussíria era realmente muito próxima do Lago Náiade. No horizonte já despontavam grandes pontas atrás de um muro cinzento.
— Estel, acho melhor precavê-lo de algumas coisas antes de entrarmos no reino. — declarou Solenni, parecendo um tanto ressentida. — Magussíria é formado principalmente de pessoas ligadas a magia. Magia para eles é a essência de todas as coisas do mundo e, por saberem mexer com ela, acham que estão acima dos outros.
— Como assim “acima dos outros”? — estranhou o defensor.
—Se magia é a essência de todas as coisas, logo, a magia é a essência da Coroa Branca. É isso que eles defendem. Acham que são abençoados, escolhidos... enfim, acreditam que os que não usam magia são tolos, e os que usam de “força bruta” mais tolos ainda, selvagens até.
— Todos são tão ridículos assim?
— Infelizmente a maioria. Os que não são tão obtusos assim têm a decência de sair do reino e conhecer outros lugares e pessoas. Existem até alguns deles em Espártaca. Mas aqui vive a maioria, então...
— Então nossa estada aqui vai ser mais complicada do que eu imaginei.
O chão gramado se transformou numa estrada de terra e, em seguida, numa de pedras cinzentas e redondas. O Reino de Magussíria erguia-se com muitas torres de cúpulas de estampas coloridas e até algumas que flutuavam, ligadas a outra construção por correntes. Estel achou-as muito parecidas com os castelos russos que já vira em seus livros.
Chegando num enorme portal de entrada, Estel e Solenni foram barrados por quatro sentinelas, além de duramente observados pelas enormes torres de vigia que possuíam forma de gárgula. Os quatro homens não se pareciam com soldados, vestiam só roupas elaboradas de tecidos azuis e cinzas, além de segurarem um longo cetro negro nas mãos.
— Alto lá! — disse um deles. — Identifiquem-se.
—Somos de Espártaca. — respondeu Solenni, com as mãos ao longo do corpo. Estel adotou a mesma posição. — Solenni Apollux e Estel Elecktrion.
— O que fazem aqui? — as sentinelas apontavam sem pudor os cetros para a cabeça e o coração dos viajantes. —Se bem que não é a primeira vez que a vejo por aqui. Mesmo assim, vou lacrar as mãos de vocês, ninguém mexe com armas laminadas aqui em Magussíria.
— Estou em mais uma das minhas viagens. Vim para repor suprimentos.
— E ele?
— Sou o escudeiro dela. — respondeu Estel, antes de a outra falar qualquer coisa.
— Hã?! — não entendeu o guarda.
— Escudeiro, uma espécie de carregador. Eu levo as coisas da Mestra Solenni.
— Você, todo armadurado assim ainda é um aprendiz?!
— Sim, e é por isso que ando protegido! Não quero me machucar! Nem esse escudo aqui é meu. Só estou andando por aí afora porque meu mestre mandou, e não há desonra maior para um escudeiro que desobedecer ao mestre. Mas se não, eu...
— Tudo bem, tudo bem! Eu não vou lacrar você, olhos de gato, já a sua mestra, sim. Não confio na força bruta. Se você fizer alguma gracinha, vamos saber! Ah, se vamos. Apresente o escudo e espada, espártaca.
Solenni, muda, fez o que a sentinela lhe ordenara. Ele fez uma cara desconfiada ao notar o sol e estrela nas armas. Uma luz acinzentada surgiu na ponta do cetro, a qual foi passada nas armas e nas mãos da garota.
— Quanto tempo pretendem passar aqui? — indagou a sentinela. — E onde vão ficar?
— Três dias, no máximo. Vamos nos hospedar no Torre Verde. — respondeu Solenni. A sentinela olhou para a torre-gárgula, a qual piscou os olhos de pedra três vezes.
—... Podem prosseguir, cadastramos vocês. Nada sai da memória das gárgulas...estão avisados.
E sob os olhares inquisidores das sentinelas e das torres-gárgulas, Estel e Solenni entraram em Magussíria. Quando estavam seguramente distantes, o garoto perguntou:
— O que fizeram com você?
Solenni não respondeu e levou as mãos ao cabo da espada. Estel notou que ela não conseguia fechá-las em torno do objeto, por mais força que colocasse.
— A mesma coisa acontece se eu tentar me aproximar do escudo. — completou a espártaca. —
Portanto, em relação a lutar, estou inútil. Ainda bem que você fez aquilo...mas como foi que teve a idéia?
— Depois do que você me falou, achei que eles não nos dariam boas vindas. Então aquele cara falou em lacrar nossas mãos, aí tive certeza. — respondeu Estel, dando de ombros. — Saiu de supetão, que bom que deu certo. Para onde vamos agora?
— Para o único lugar daqui que aceita “estrangeiros selvagens”, o Torre Verde.
As ruas do lugar estavam em ebulição. Eram muitas pessoas para lá e para cá, carregando coisas, discutindo outras, saindo e entrando em todo canto. Solenni os levou por algumas ruas já certas.
As pessoas não paravam de olhar para eles, umas com desprezo outras com uma cara que Estel jurou ser de choro. Ela parou a poucos metros de um prédio alto, onde os quadrados que eram os andares estavam distribuídos de um modo que lembravam uma árvore, os “galhos” eram escadas com tetos arqueados cobertos de folhas e flores, e ele era verde e branco.
Havia uma pequena aglomeração na porta do local, mas os transeuntes não ligavam para ela. Um grupo de uns vinte garotos cercava uma jovem. No meio, estavam ela e um dos garotos. Loiro, cabelos grandes presos num rabo-de-cavalo baixo que descia até o meio das costas. Ele passou a mão pelo rosto, impaciente, e disse:
— Iona, é a última vez que eu peço, coopere. É pelo seu próprio bem.
— Não acredito nas suas ameaças, Luan. — retrucou a garota, irritada. — Porque elas não passam disso, ameaças. Você e seus cães de guarda são uns covardes!
Os garotos da roda gritaram, ofendidos. O garoto louro não disse nada, suspirou fundo e fez um gesto com a mão. Os que estavam atrás deles fecharam o círculo.
— Iona, é a última vez, senão...
— Senão o quê?
Todos do grupo viraram as cabeças para Solenni, que acabava de chegar ali com Estel. O jovem loiro assustou-se e ficou branco, como quem acabava de ver um fantasma. Ele pigarreou um pouco, passou a mão pela cabeça outra vez e disse:
— Você de novo. Não se cansa de se meter em assuntos que não são da sua conta?
— É da minha conta sim. — respondeu Solenni, muito séria. — Eu é que pergunto se você não se cansa de perseguir Iona. Pelo Sábio-Rei, deixa a garota em paz!
— Se ninguém aqui me dá ordens, porque você, uma selvagem de fora, me daria?
— Olha lá como fala, idiota! — exclamou Estel, que não estava entendendo nada, mas entrou na discussão. — Você só é atrevidinho assim porque está ladeado de outro monte de idiotas!
— Olha lá como fala, você, olho-de-basilisco!
Iona e Solenni exclamaram de horror, enquanto os garotos gritavam aquele nome em alto e bom som. Algumas pessoas da rua começaram a espiar.
— Retire o que disse, imbecil!! AGORA!! — gritou Solenni, raivosa, como Estel nunca a vira antes.
— Ficou nervosa? Por quê? — desdenhou Luan, rindo e se aproximando. — Ele é seu namorado?
— E se for?! Algum problema?! Mais um motivo para eu quebrar a sua cara por essa ofensa. Retire o que disse!!
— Se eu fizer isso, o que eu ganho em troca?
O garoto loiro puxou a mão de Solenni para bem perto do rosto, como se fosse beijá-la. O susto dela durou o tempo em que Estel fez uma careta de indignação. No outro instante a espártaca já torcia o braço do garoto, colocando-o nas costas dele de um modo terrivelmente desconfortável.
— Da próxima vez, vá tentar agarrar um dos seus puxa-sacos, estúpido!! — disse Solenni, fazendo o outro gemer de dor sem piedade. — Alguém mais se habilita?!
Os outros garotos tiraram dos bolsos cada um uma jóia de cor e tamanho diferente. Elas se transformaram em cetros, que foram apontados para Estel e Solenni. Quando Estel tencionou em tirar o escudo, Luan gritou:
— Não, não façam nada! Eu retiro o que disse, garota, agora me larga!
— Com prazer, já me sujei demais!
— Eu vou denunciar você, selvagem! — ameaçou ele.
— Ah, não vai não!! — exclamou Iona, decidida. — Atreva-se e eu denuncio você. Seu pai não vai ajudá-lo de novo.
— E então, desiste? — indagou Solenni.
— Por enquanto. — respondeu ele, a raiva contida. — Vamos embora, pessoal.
Os garotos falaram mais alguns palavrões e saíram pela multidão.
— Meu Sábio-Rei! Solenni, obrigada por me salvar mais uma vez. — disse a jovem, respirando fundo. — Eles estão cada vez piores.
— Não há de quê. — respondeu a espártaca, apertando a mão da outra.
— Alguém pode me explicar o que foi isso. — falou Estel, perdido. — Por que aqueles cavalos estavam cercando você?
—É uma longa história, mas, para resumir, o chefão dos estúpidos quer uma planta muito rara que só a minha família produz. — explicou a jovem. — E exatamente por isso, eu não posso ficar dando amostras grátis por aí. Aquele idiota do Luan está desesperado por ela, sei lá pra quê, mas está. Ei, a Solenni eu já conheço, ela sempre se hospeda aqui quando vem a Magussíria, além de me salvar. E você?
— Estel. — o garoto achou muito bom que o cumprimento ali fosse igual o da Terra, não se sentia tanto a diferença dos mundos. — Sou o escudeiro de Mestra Solenni, carrego as coisas dela. Parece que eles incomodam muito...por que ninguém faz nada?
— Primeiro, porque os mais velhos acham que não passa de “coisas de jovem”, sabe. Eles não dão muito crédito, dizem terem coisas mais importantes com o que se preocupar. — Iona bufou. — Segundo, porque o loiro energúmeno é filho de um dos Anciões do Conselho de Magussíria, um importante. O pai o salva de tudo, não importa o quanto a gente reclame. Mas vamos mudar de assunto. Vocês vão ficar aqui?
— Sim, vamos. Três dias apenas. — respondeu Solenni.
— Pouco tempo, mas com você é sempre assim, mal chega já sai. Depois desse novo salvamento, vou pedir a meu pai um desconto pra você. — comentou Iona. — Pelo menos vão poder curtir a festa que vai haver hoje à noite. 482 anos da criação da Academia Arcanum. Vai ter um monte de gente da nossa idade por lá.
— Mas será que tão legais quanto você? — questionou Estel, sincero.
— No meio da diversão todo mundo fica igual, ninguém vai ter crachá de identificação. — falou a outra, dando uma piscadinha e rindo. — Vamos, vai ser legal e...
E continuou falando enquanto levava para dentro seus clientes.
Há alguns metros dali, sentado com seus amigos baderneiros num beco, Luan respirava ansioso, pensando no que acabara de acontecer, de se tornar real. Os dois estavam ali, como Magnus falara. Mas a garota não tinha olhos dourados nas mãos, como sonhara. Ele não tinha muito tempo, faria alguma coisa para atraí-los. Era tudo verdade. Depois de tanto tempo ele tinha como provar.
— Então, estão bem acomodados? — indagou Iona, recebendo Estel e Solenni na recepção da hospedaria.
— Sim, obrigada. — respondeu Solenni. — Mas seu pai não precisava nos dá-la de graça.
— Não, não! Nós fazemos questão. Meu pai também não suporta aquele garoto e o pai dele.
Sempre quando você vem para cá ele se afasta, e eu agradeço por isso. Eu não agüento mais essa perseguição dele.
— E esse cara não tem família, não, além do pai?! — indagou Estel, indignado.
— Não, não tem. — respondeu Iona, com uma frieza que espantou os outros dois. Aquela informação era nova até para a espártaca. — A mãe dele morreu, o pai nunca tem tempo para ele e a irmã, é um viciado em trabalho e essa irmã está doente. Ela até tenta ter uma vida normal, mas nunca vai conseguir. Bom, tenho que resolver umas coisas para o meu pai agora. Se o Luan aparecer, vou dizer que você está como minha guarda-costas, escondida em algum canto. — Iona riu. — Pode ser?
— Sem problema. — disse Solenni, ainda processando a primeira parte da informação.
Iona deu um “até a noite” e depois saiu. Estel e Solenni entreolharam-se, não acreditavam a naturalidade com que a outra falara das desgraças do tal Luan.
— E aí...o que a gente faz agora? — indagou o defensor, esquecendo a conversa anterior. — Consultei o escudo antes de sair do quarto, mas ele só brilha, não mostra seta nenhuma.
— Não faço a mínima idéia, então. — falou Solenni, sincera. — Espero que como aconteceu comigo, que sonhei com você; ou como você, que teve aquelas intuições do nada, as circunstâncias nos levem até um regido ou uma litta. Só podemos tornar as coisas mais fáceis andando por aí.
E foi o que fizeram. Rodaram boa parte da tarde pela cidade, porém não encontraram nada demais. Solenni aproveitou para comprar alguns medicamentos extras, mesmo sob o olhar desconfiado do vendedor, que não acreditava que uma “de fora” soubesse tanto sobre remédios.
Eles decidiram então ir para a tal festa, afinal, iria haver uma concentração de gente muito maior e a chance de achar algo ou alguém seria maior também. Pelo menos era assim que eles esperavam.
À noite toda aquela parte da cidade morria. Era uma das cinco partes em que se dividia o reino, sendo aquela mais voltada ao comércio. Quando o expediente acabava, a maioria ia para suas casas, ficando somente uns gatos pingados ainda abertos. O lazer estava na parte de onde as luzes e as vozes vinham. Estel e Solenni estavam bem mais leves agora, sem armaduras, somente com roupas que eles costumavam usar em espártaca. Eram guiados por uma Iona vestida de azul e com uma longa trança castanha presa numa fita da mesma cor balançando nas costas.
— Você nunca solta seu cabelo todo, Solenni? — Indagou Iona, que pareceu notar esse costume da outra. — Por quê? Eles são tão bonitos.
— Obrigada, mas não. Espártacas prezam muito por seus cabelos, mas só os soltam por poucos motivos. — respondeu a outra, que exibia uma longa trança colocada de lado cheia de fitas brancas. — Ou quando estão impossibilitadas de lutar, como quando estão doentes, feridas, de luto, ou grávidas. Ou quando são desistentes ou derrotadas em uma batalha.
— Huumm... e como se sabe a diferença?
— Pelo cuidado, pela aparência. Quando nos sentimos derrotadas, com algum sentimento de arrependimento ou desistência, não sentimos vontade de cuidar nem de nós mesmas.
— Sei... e para vocês a morte não é motivo de tristeza?
— Não, exatamente. Quando se morre de morte natural, ficamos abalados, mas celebramos tudo que aquela pessoa fez em vida, para que a dor se amenize. Para os espártacos é importante que fique a saudade da lembrança da pessoa em si, e não a da hora da sua morte.
Iona fez uma cara de surpresa e de estranhamento. Estel escutou aquelas palavras lembrando-se das coisas que Mestre Leônidas lhe contara... Infelizmente Solenni não pode seguir aqueles costumes, as pessoas de quem ela mais gostava não se foram de um jeito natural... Lembrou-se também daquele dia que a viu de cabelos completamente soltos no jardim. Ela deveria sentir-se culpada, derrotada.
— E você, Estel? — chamou Iona, tirando o defensor de seus pensamentos. — O que você é da Solenni mesmo?
— Escudeiro. Eu carrego as coisas que a mestra precisa para suas viagens. Não apareci antes porque não era necessário, agora ela vai passar muito tempo longe, precisa de provisões e equipamentos extras.
—Hum...sei. E para onde estão indo?
— Mestra Solenni é uma exploradora, não tem destino certo.
— É muita coragem de vocês, do jeito que as coisas estão esquisitas por aí...
— E por aqui, não tem nada de esquisito?
— Ah, muitas coisas, mas já se tornaram comuns, se é que me entendem. A “coisa esquisita” mais recente são alguns tremores de terra que vem e vão de repente. Sem explicação até agora.
— Mais alguma coisa?
— E você queria mais o quê?! Só se forem esses seus olhos de gato, até brilham no escuro!
— Desculpa...era só curiosidade.
A conversa acabou quando os três jovens chegaram numa gigantesca praça cheia de luzes, cores e gente.
— Bom, a gente se separa aqui. — anunciou Iona, sorrindo. —Boa festa pra vocês, até mais!
Os outros dois acenaram um adeus. Em seguida, Solenni virou-se para Estel e perguntou:
— Por que insiste nessa história de ser meu escudeiro? Eu me sinto meio incomodada com isso. Eu ensinei você, mas não acho que precise ser chamada de mestra...
— Desculpa, mas é que acaba dando certo, entende? — disse Estel, meio rindo meio sem jeito. —
Um assunto puxou o outro, até que eu tentei saber de alguma coisa de diferente por aqui...vai ver ela podia conhecer alguém que tivesse sonhos estranhos, ou ser dono de uma jóia exótica. Queria agilizar um pouco as coisas, olha esse mundo de gente!
— É verdade...pelo menos você tentou. Não imagino absolutamente nada que possamos fazer, a não ser andar por aí e esperar por um milagre.
— Bom, já que temos que esperar alguém anunciar que achou uma litta numa gaveta de meias velhas, ou um regido aparecendo e dizendo “Oi, sonhei com você minha vida inteira, vamos arriscar nossas cabeças juntos?”, então não custa nada nos divertir um pouco enquanto isso não acontece.
Estel notou que arrancou um riso de Solenni, isso fez seu peito e estômago formigarem. Os dois, então, perderam-se na multidão. Estel admirou as barracas cheias de coisas estranhas, árvores lotadas de lanternas e os balões coloridos no céu que voavam em acrobacias sozinhos soltando bolhas de sabão. Eram tantas pessoas, tanta as possibilidades que ele não conseguia se concentrar direito. Fora que, às vezes, pela sua mente lhe saltava a idéia de que parecia estar num encontro com Solenni. Ela estava linda...queria fazer alguma coisa para ela, mas não sabia o quê. Pensou, enquanto mastigava vários bolinhos um deles igual a um sonho de morango...que bom que em Eternia existia aquele tipo de coisa.
— Ei, pra você. — disse Estel, entregando a Solenni uma lanterna de metal antigo, muito bela e detalhada, segurada por uma corrente fina.
— Hã?! Não...não precisava, Estel...é, obrigada...!! — respondeu Solenni, as orelhas ficando da cor do cabelo. Para disfarçar ela continuou. — Mas você disse que ia ao banheiro, não sabia que estavam distribuindo isso por lá.
— É, eu menti, mas foi por uma boa causa. Desculpa se não é algo assim...mais legal...bem, para garotas. Só que foi uma única barraca onde achei um jogo que não usava mágica e eu entendi o que era pra fazer. Tirei um excepcional quinto lugar. Abre aí, até que ela é bonitinha.
Solenni notou que a parte de cima da lanterna era uma tampa com dobradiças. Ao abrir, deparou-se com um amontoado de brasas grandes onde uma criaturinha esguia se mexia em cima dela. Era um lagarto vermelho-escarlate, olhos redondos laranja-vivos e com três pares de patinhas inquietas. Quando respirava, veios incandescentes apareciam em seu corpo.
— O que é isso? — indagou a espártaca, surpresa.
— O homem da barraca disse que era um filhote de salamandra-rubi. — respondeu o outro. —
Diz que traz sorte...e pensando no que pode nos acontecer, acho bom carregarmos ela para todo o canto.
— Adorei.
Estel admirou-se com o elogio e ainda mais com a reação da outra. Solenni apoiou a mão livre em seu ombro e beijou-lhe a testa. Porém não lhe deram tempo de aproveitar aquilo, uma voz familiar e irritante falara com eles:
— Humm, acho que a gente não chegou numa boa hora. — ironizou Luan. Sua gangue toda vinha atrás, rindo como babacas. — Atrapalhamos o que vocês estavam fazendo?
— Você não é conveniente em hora nenhuma. — disse Solenni, irritada. — O que fazemos ou deixamos de fazer não é da sua conta! Por que inventou de nos perseguir agora?!
— Calma. É que você tem uma coisa que eu preciso muito, mais do que a erva - daninha da Iona.
— E o que seria essa “coisa”? — indagou Estel, rangendo os dentes.
— Agora é a minha vez de dizer: isso não é da sua conta. — retrucou Luan. — Olho – de - basilisco.
— Mas é da minha! — resmungou Solenni. — Você e seus cachorros vem nos perseguindo desde que chegamos aqui...estava só esperando a hora em que dariam as caras!
— Oh! Bela percepção. — comentou Luan, com mais ironia, fazendo os garotos trás deles rirem. — E agora que demos nossas caras, vocês vêm com a gente.
Os outros garotos que acompanhavam Luan começaram a cercar Estel e Solenni. Estes não tencionavam reagir, mas se fosse o caso...
Foi quando um forte tremor quebrou a tensão do momento.
Ele foi tão rápido quanto veio. Houve gritos no local e depois um silêncio pesado de expectativa.
Então no segundo seguinte o tremor voltou, mais violento e demorado. A gritaria das pessoas uniu-se ao som de pedra se partindo, árvores e barracas caindo, o chão rachando.
— Vamos embora aqui!! — gritou Estel, tentando manter-se de pé.
Estel, Solenni, Luan e os outros garotos tentaram correr, mas só conseguiram dar alguns passos cambaleantes. Até por que, de um grande buraco do chão, saiu algo que os paralisou.
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