quarta-feira, 21 de julho de 2010

Coroas de Eternia - O Escudo, A Espada e O Cetro

Segundo Escrito - Que vira realidade

Finalmente Estel pode aproveitar alguma coisa naquele dia: o sinal de saída. Pegou suas coisas e foi embora o mais rápido que conseguiu, sem falar com ninguém. Tão desgostoso que estava de tudo, nem notou alguns alunos que gritavam: “Lá vai o bichano epiléptico!”.

Na rua, andava de boné e com a cabeça o mais abaixada que o pescoço permitia e, para seu alívio e espanto, desviava de qualquer coisa que aparecia na frente. Estel morava num prédio não muito longe do colégio. Chegou ao apartamento, jogando a mochila no sofá, e foi procurar a mãe.
Àquela hora a mesa já estaria arrumada para os dois almoçarem, em seguida a mãe ia para o trabalho e ele para a pia lavar a louça. Só que, ao contrário disso, Estel encontrou o lugar vazio. Na cozinha achou uma pista: um bilhete na geladeira. “Estel, a mamãe saiu mais cedo. Vai resolver alguns assuntos urgentes. Há uma quentinha no fogão e dinheiro para você comprar algum lanche. Beijos.” – era o que dizia o recado.

O garoto estranhou...primeiro, porque a mãe sempre explicava para onde ia e dava alguma idéia de quando voltaria; segundo, desde quando ela tinha “assuntos urgentes”?!

Ouviu o ronco do estômago e deixou as dúvidas de lado.



Às três horas de uma tarde incrivelmente entediante, Estel resolveu dar-se um prêmio por estar agüentando com mais ânimo que o normal aquele dia nada motivador. Normalmente passava a tarde dormindo, acordando na hora em que mãe chegava para jantarem. Contudo, hoje, por algum motivo, ele não estava conseguindo dormir. Ficou prostrado no sofá vendo nada de interessante na televisão. Cansado disso, pegou o dinheiro que a mãe deixara e foi ter seu merecido prêmio, na verdade, lanche.

Há alguns quarteirões do prédio de Estel havia uma enorme padaria. O dono dela chamava-se Luciano e ele, um homem grande desde a barriga até o bigode, havia ajudado muito a mãe de Estel anos atrás, quando ela chegou à cidade. Ajudado tanto que o que cara acabou se apegando demais à mãe para Estel. Ele ajudou? Ótimo, obrigado, mas isso não quer dizer que ela (nem ele) tenha que agüentar o dono da padaria a cercando o tempo todo, fazendo galanteios, alguns até bastante indiscretos.

Tirando isso, o lugar fazia sonhos que Estel não conseguia passar muito tempo sem comer.

— Boa tarde, meu filho!Ah! ah! Nem precisa dizer! — falou Luciano, ao ver Estel entrar. — Dois sonhos e achocolatado gelado, sim? À propósito, como vai sua mãe?

—Bem, obrigado. E sim, é isso mesmo que eu quero. — respondeu o outro, sem muito entusiasmo. Sabia que a gentileza era só por causa da mãe. Luciano também fazia careta quando o encarava nos olhos. — Taqui o dinheiro.

Quando Estel colocou o braço sobre o balcão, Luciano agarrou-lhe o pulso e o puxou para bem perto de seu rosto cheio de pêlos. Estel torceu o nariz, o homem cheirava a suor, gordura e perfume barato.

— Garoto, garoto! Tenho uma proposta para lhe fazer. — disse o homem, sussurrando para um Estel imobilizado. — E se você aceitar, vai ter um monte de vantagens.

— Do que diabos você tá falando?! — exclamou o garoto, incomodado com a posição que estava, não se preocupando em sussurrar.

— Ora, rapaz, você sabe muito bem o que eu quero!

— Ouse dizer o que é!!

—Acalme-se, veja as vantagens! Você sabe que eu tenho muito dinheiro, posso muito bem dar um jeito em você, digo no sentido de ajeitar esses seus olhos horrorosos e acabar com suas paranóias! Eu só quero que me ajude a ter a sua mãe! No bom sentido claro!

Luciano deu um sorriso que para Estel nunca significaria “bom sentido”. Estel passou da tensão imóvel, para a incredibilidade pasma e finalmente para a indignação plena em três segundos.

— OLHA LÁ COMO FALA DA MINHA MÃE, SEU FILHO DA PUTA! — gritou ele, indignado, mesmo na frente de várias pessoas. — VOCÊ NUNCA VAI “TER” A MINHA MÃE! VÁ A MERDA!

Jogou um dos sonhos na cara de Luciano e saiu desembestado do lugar. As pessoas começaram a murmurar e Estel passou pelas portas da padaria ouvindo Luciano dizer: “Calma, gente, calma, ele não é normal, não bate bem da cabeça, coitado.” Seus pés, guiados pela raiva, o levaram a esmo. Então, sem saber por que, estancou numa esquina. Erguendo a cabeça, deparou com uma cena que fez seu estômago descer para os tornozelos.

Eduardo e Bianca beijando-se.

Seu primeiro instinto foi sair do campo de visão deles.

— O que foi, Edu? Desde que chegamos aqui você não está com a cara muito boa. — perguntou a garota.

— Eu não estou me sentido bem mesmo, Bia... — respondeu o outro, passando a mão pelos cabelos. — Estava pensando no Estel...sei lá, a gente não foi muito legal com ele hoje.

—É, eu sei. Mas eu não sabia que ia deixá-lo tão chateado. Só queria que ele se cuidasse.

— Mas esse é o problema, Estel acha que apesar de tudo que tem, ele é normal.

— É...e não quer admitir que precisa de tratamento. Quer simplesmente ignorar.

— Mas, não é só isso que me incomoda...também tem o fato da gente estar namorando a dois meses e não ter falado pra ele.

— A mim também, Edu, mas qual seria a reação dele?

—Ah, quanto a isso não precisa ficar preocupada, Bia. — respondeu Estel, saindo do lugar onde estivera escondido. — Eu só iria dizer que quero que tudo certo entre vocês dois. Não vou bater em ninguém, não vou dar chilique, arrancar cabelo ou começar a babar no meio da rua. Agora, eu só acho que vocês podiam ter me avisado antes, assim eu teria economizado o tempo em que passei conversando com o Eduardo sobre você, ou imaginando como falar com você, achando que vocês dois eram muito corajosos por estarem andando com um cara “que precisa de tratamento”. Mas eu já sei o que vou fazer...vou arrancar meu olhos e me trancafiar num sanatório como disse o Caio, até eu ficar “normal” o suficiente para vocês.

O garoto deu meia volta e foi embora. Bianca fez menção de ir atrás, mas Eduardo a segurou, não adiantava mais.

Estel espantou-se com a frieza que fizera aquele discurso. Mas tal frieza escondia toda sua revolta e frustração. Era sempre assim...não importava o esforço que ele fizesse, ninguém o olhava como normal. Porém dessa vez fora um pouco demais...ninguém fingia por três anos ser amigo...ou fingia, como acabava de acontecer. Ele não merecia passar por aquilo! Por que diabos faziam isso?! Estel estava tão perdido que começou a questionar se era normal mesmo...

—AI!!

Um tropeção trouxe Estel de volta à realidade. Olhou xingando para onde havia batido o pé e se assustou. Estava afundado no concreto sólido até o tornozelo. Como aquilo aconteceu?!! Depois, da área do tornozelo, pequenas ondas amoleceram o chão fazendo-o parecer água, formando um círculo perfeito ao redor de Estel, que começou a afundar. O garoto se desesperou. Ele estava afundando no chão!! Não podia ser mais um sonho seu, a sensação de sugamento era real! Olhou ao redor. Estava numa praça cheia de árvores, perto de casa. Gritou por ajuda, ninguém respondeu. Mas que porcaria! Àquela hora a praça comumente estava cheia, então cadê o povo?!! Quando se deu conta, afundara até o peito. Agarrou-se ao pé de um banco próximo, só para ganhar arranhões na mão. Afundou de vez.

Passaram-se dez segundo de uma sensação fria e molhada, em seguida Estel foi cuspido violentamente e caiu no chão. Recuperou-se da queda e se deu conta de onde estava.

Assustou-se pela segunda vez.

O garoto se viu numa sala enorme de teto alto e plano, o qual exibia desenhos em baixo relevo de uma estrela gigante de cinco pontas agudas e cavaleiros com escudos tão grandes quanto eles mesmos. Abaixando a cabeça, viu-se diante de um círculo de pedra com a mesma estrela do teto, só que cercada de riscos simbolizando luz e letras estranhas. Pelo lugar onde estava sentado, parecia que o círculo era que o havia cuspido, mas apesar da sensação molhada de antes, estava completamente seco. Nas paredes estavam penduradas compridas cortinas verdes com bordados dourados e luminárias exóticas, pois sua luz vinha de cristais brancos que flutuavam.

— O que achou do templo?

Estel virou-se num pulo. Este foi seu terceiro susto. Um homem falara com ele, alto e forte, de cabelos curtos e castanhos, olhos de um azul profundo, vestido com uma armadura verde-oliva e roupas brancas, que no peito exibia a estrela do teto em menor escala e em ouro. Ate aí o susto não tinha motivo de ser “tão grande”, mas as grandes asas castanhas de falcão que brotavam das costas desse homem fizeram o queixo de Estel cair.

— Perdão por ter aparecido assim de repente. — disse o homem, de fala polida e firme. — Você nunca tinha visto um homem com asas, não é mesmo?

Estel só conseguiu mover a cabeça de um lado para outro.

— Então, não deseja perguntar nada? — continuou o outro.

— Errr...eu...o que...hã...o que aconteceu? — foi o que saiu da boca de Estel.

— Você está em Eternia.

— Hãã?!!

— Foi isso que você ouviu. Eternia. Por favor, olhe lá fora e você começará a entender.
Estel levantou-se devagar, tenso, sem entender a sugestão do estranho. Contudo, seguiu-a. Com passos vacilantes chegou às portas gigantes do lugar. Mas quem ligava para portas gigantes que pesavam como pena ao se abrir, se o que estava atrás delas, era sensacionalmente mais fantástico?!

Uma floresta esmeralda de um lado onde o que parecia uma cidade antiga estava no meio, uma planície verde-claro do outro, montanhas avermelhadas mais atrás, morros de pedra, um lago enorme bem distante. Um mundo inteiro se estendia a frente de Estel, na verdade parte, pois o garoto via o céu arredondar-se no horizonte. Descobriu que estava num lugar bem alto, visto o alcance de sua visão.

— Não sei se comecei a entender, mas a paisagem é muito bonita. — disse Estel, voltando para o interior do salão, confuso. — Por que eu vim parar aqui?!

—Agora vem a parte mais complicada, vou ter de explicar muita coisa em pouco tempo. — anunciou o cavaleiro. — Primeiro, vou me apresentar. Perseu, o Primeiro Vigilante. Bem, Estel, você foi trazido para cá porque precisamos de você.

—O quê?! Como assim?!

— Este lugar aonde você chegou é o Templo do Escudo Vésper. Ele contém uma das três forças que protegem Eternia e você foi o escolhido do mestre para manejá-la.

— Isso é sério, é?! Parece um filme que eu vi semana passada, cê tá de brincadeira... Não...pela sua cara você não está de brincadeira.

— Você vai compreender essas informações aos poucos. Vou lhe contar um mero resumo, pois há pressa. Eternia é regida por uma força chamada Mazda, a Coroa Branca. É ela quem regula a vida neste mundo. Ela é guardada pelo meu mestre, o Sábio-Rei, também chamado de o Vigilante Altíssimo. Há muito tempo atrás o Mestre enfrentou um terrível inimigo que quase dizimou esta terra: Apóphis, a Coroa Negra. Após muito lutar, afastamos a criatura e suas crias de Eternia.

— O que você quis dizer com “afastamos”? Vocês não derrotaram?

— Não. Prova disso são os horrores que voltaram a nos afligir. A paisagem que você viu é muito bela, realmente, contudo em outros lugares já não é mais assim.

— E por que vocês não vão lutar de novo contra ela?

— Porque dessa vez o Sábio-Rei sabe de um modo de bani-la para sempre. Recebeu da Coroa Branca uma profecia que fala sobre isso, do banimento da Coroa Negra.

— Espera...profecia?! Eu ouvi essa palavra...no meu sonho... !! Quer dizer, esquece o que eu disse! Foi só um sonho maluco...

— Não foi um sonho, ou sonhos malucos, foi uma mensagem do mestre. Estel, eu sei que desde muito tempo você sonha “coisas estranhas”, o mestre me falou. Porém, na verdade, ele estava tentando se comunicar com você, prepará-lo para o dia em que seria chamado para Eternia, mas você é de outro mundo o que torna tudo mais difícil. Ele lhe contou do que se tratava a profecia?

— Não. Ele falou de uma estrela, de um encontro e me chamou de um nome estranho...é...

Ŝirmilo þildo?

— Isso!

— A profecia fala de todas essas coisas que ele citou. Pouco tempo depois de a primeira guerra haver terminado, o mestre revelou as palavras da Coroa Branca. Ele disse: “Três jóias para a coroa de um novo rei. A Estrela , O Sol e A Lua. Três armas para a defesa de um novo rei: O Escudo, A Espada e O Cetro. Três regidos para a guia de um novo rei: O Guardião, A Dama e O Mestre. Abençoados sejam os que carregam em si as faces da Coroa Branca! E abençoado seja o novo rei, pois ele será coroado e a coroa ele quebrará.” Em resumo, foi isso.

—Eu me lembro de ter visto um estrela no sonho...

—Isso porque você é o Ŝirmilo þildo, que na língua da Coroa Branca quer dizer Guardião do Escudo. A estrela significa que sua arma, O Escudo, tem a força da estrela de Eternia, a Estrela Vésper.

— E os outros?

Glavo damo, ou Dama da Espada; em sua arma está a energia de Hórus, um nome que um povo antigo dava para o sol. Sceptro mastro, ou Mestre do Cetro; neste, está à magia dos cinco dragões-totem de Eternia, incluindo Fafnir, o que dizem ter nascido da lua.

— E esse “novo rei”?

— O novo rei é o escolhido que ficará no lugar do mestre. Ele carrega em si a própria Coroa Branca. Na profecia diz que os Regidos, você e os que carregarem A Espada e O Cetro, viajarão para encontrar-se com ele e o guiarão para que seus poderes sejam finalmente abertos. Será ele quem derrotará a Coroa Negra e se tornará o novo Sábio-Rei. Chamamos a ele de Abençoado.

— Mas porque outro Sábio-Rei?

— Isso nosso mestre disse que a Coroa Branca ainda não revelou.

—...

— O importante agora é que a profecia comece a se desenrolar. O resto das respostas virá no caminho.

— Certo...certo...acredito em você. Nossa...isso é muito estranho...loucura. Mas, porque eu?! Eu não sei nada sobre esse lugar, não sei lutar, nem...sei lá...soltar magia, esse tipo de coisa. A única coisa de “diferente” que eu tenho são esses olhos bizarros.

— Essa pergunta Estel, eu também não posso responder.

Alguns segundos de silêncio passaram e o garoto não pode deixar de notar a expressão triste de Perseu, com os olhos distantes. Porém antes que Estel pudesse perguntar o porquê dela, o homem voltou a falar:

— Estel, você é um dos escolhidos, mas o Sábio-Rei deixou bem claro que nós não poderíamos forçar nenhum de vocês a entrar nesta guerra. Isso é uma responsabilidade muito pesada, até mesmo para um guerreiro experiente. Portanto, se for de sua vontade voltar para o seu mundo, sinta-se livre para o fazer.

Estel ouviu com toda a atenção as últimas palavras de Perseu. Aquela era uma decisão crucial e ele não teria muito tempo para pensar nela. Contudo, de certa forma, já sabia a resposta. O que o esperava no seu mundo?...A mãe. Tirando todos aqueles inconvenientes, havia a sua mãe. Se àquela hora já estivesse em casa, estaria preocupada. Será que não era melhor voltar? Pode ser que sim, mas não era isso que ele queria fazer. Apesar de Perseu ter deixado bem claro que sua vida estava em risco e que a de um mundo inteiro (e completamente desconhecido) estaria em suas costas a partir do momento que dissesse sim, era isso que ele queria fazer. Na verdade, mesmo, ele não queria voltar. Pediu mil vezes desculpas a mãe mentalmente.

— Eu...eu vou ficar. — respondeu Estel, sentindo uma pedra bater no fundo do estômago. — Mas eu nem sei por onde começar, e nem sei de nada daqui.

— Acalme-se, tudo ao seu tempo. — respondeu o cavaleiro. — Acha mesmo que cobraria de você compreender e aprender tudo, assim que dissesse sim? Para começar, pegue seu escudo. Vá até o círculo de pedra pelo qual você chegou e coloque seu braço esquerdo dentro dele.

— Hãã?! Colocar meu braço “dentro”?!

— Sim, exatamente como falei.

Estel seguiu a outra sugestão de Perseu, mas sem acreditar muito de novo. Chegou à frente do círculo e aproximou devagar sua mão esquerda. E se não acontecesse nada? E se sua mão simplesmente encostasse o concreto, como era o mais normal a se esperar? Contudo o esperado não foi o ocorrido. Estel observou que à medida que sua mão ia chegando perto da pedra, ela começou a ondular como água; e seus dedos afundaram quando pressionaram a superfície. Enfiou todo o antebraço esquerdo, sentindo imediatamente alguma coisa muito leve encaixar-se nele. Por puro reflexo, Estel retirou-o. E por puro reflexo, admirou-se.

Um escudo foi o que apareceu. Era circular e seu tamanho era o suficiente para cobrir a cabeça e parte do tronco de Estel. Fixava-se no antebraço por dois semi-aros de metal com travas. Possuía bordas grossas de metal prateado, seu interior era verde-escuro fosco, no centro uma grande estrela dourada como a do teto.

— Esse é o primeiro passo. — disse o Vigilante. — Sua arma, Estel, o Escudo Vésper.

— Uau...!! — foi o que saiu da boca de Estel. Mas ele pensou um pouco além, olhando para o teto.

— Mas...Persou, ele não está muito simples comparando com aqueles do alto, não?

— Claro que está. Mas teve de ficar condizente com a força atual daquele que o carrega (Estel percebeu que pensou demais). Precisa ir devagar, você mesmo disse que não sabe lutar. O Escudo se adaptou a você e continuará a fazer isso. Quando ficar mais forte, ele também ficará. Contudo, não só com a aprendizagem, ele precisa das chaves para que seu poder seja plenamente liberado.

— E que chaves são essas?

— Chamam-se Littas. Estão espalhadas pelo mundo, por segurança, aguardando a hora de serem colocadas no Escudo. As suas totalizam cinco. Só você será capaz de tê-las e usá-las.

— Então quer dizer que eu tenho que aprender a usar o escudo para conseguir ser capaz de manejá-lo quando for aumentando a força dele com as tais littas?

—Não, pelo contrário. Você precisa das littas para que elas expandam a capacidade do Escudo para você. O Escudo é quem deve acompanhá-lo. Se essas chaves fossem colocadas e não fosse você a manejar a arma, ela continuaria nessa primeira forma. Uma parte da força está na arma, mas a outra, a maior e mais importante, está em quem a usa. Você é Guardião do Escudo.

— Certo... Você falou de “primeira forma”...isso quer dizer que ele vai mudar, fisicamente falando?

—Sim, ele irá se adequar a você de todas as maneiras. Agora, pode ir comigo lá fora?

— Tá. Mas o que foi?

— Espere.

Estel e Perseu apertaram os olhos diante da claridade do dia. O garoto voltou a admirar a paisagem a sua frente, antes que o cavaleiro lhe pedisse atenção.

—A partir de daqui, Estel, você segue sozinho. — anunciou Perseu.

— O que?! Agora você tá brincando! — rebateu Estel, indignado. — Acabei de falar que não sei nada sobre esse mundo, ou lutar, ou...

— Calma. Primeiro, olhe para seu escudo, concentre-se nele.

Estel fez mais uma vez o que o outro pedira, com raiva. Parecia que toda a conversa lá dentro não servira pra nada! Colocou os olhos sobre o escudo que reluzia a luz do dia. Era perfeito. Achou-se tão vidrado na estrela do centro, que tomou um susto quando uma linha de luz saiu de uma de suas pontas e se colocou da direção da floresta esmeralda como a seta de uma bússola.

— O que é isso? — indagou Estel, intrigado.

— O Escudo será seu guia. — explicou o cavaleiro. — Ele lhe dirá para onde deve ir. Ou você encontrará uma litta ou um dos outros dois Regidos. Indo nessa direção, você chegará à Floresta Elísia e, se continuar, a Espártaca. Lá,, encontrará alguém para ajudá-lo.

— Não é assim tão simples.

— Claro que é, se você quiser que seja.

— ...

— Você é corajoso, Estel. Decidiu ficar aqui no que na segurança do seu mundo, e eu o agradeço muito por isso. E sempre que puder, eu o ajudarei. Não vou dizer para não se preocupar ou não ter medo, esses sentimentos às vezes são necessários para nos deixarem alertas. Contudo, uma coisa você não deve sentir: desespero. Pois só sente isso, quem desistiu de procurar uma solução. “Para tudo existe uma solução, quando se tem uma cabeça pensante e um coração pulsante”, dizem as pessoas. Quando isso tudo terminar, você voltará para o seu mundo. Desejo boa sorte e cuide-se.

E sem dar tempo à réplica, Perseu desapareceu. Estel suspirou, sentindo-se perdido. Olhando novamente a paisagem, decidia se ficava ali para sempre esperando o Vigilante aparecer de novo, ou seguia com a cara e a tal coragem que tinha. Seguiu a segunda (na verdade única) opção. O garoto começou a descer as longas escadarias do templo, ladeadas por enormes colunas. A partir dali, era o mundo. Eternia.

Aquela seria uma estrada longa, penosa e ao mesmo tempo recompensadora. Era isso que Estel descobriria.

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