terça-feira, 13 de julho de 2010

Coroas de Eternia - O Escudo, A Espada e O Cetro

Primeiro Escrito – O sonho

Sentia-se flutuando, caindo vagarosamente, até que seus pés tocaram o chão. Abriu os olhos. Encontrava-se num espaço negro sem nenhuma indicação de parede ou de chão de verdade. Olhava com agonia para os lados, mas não havia ninguém ali além de si mesmo. O mesmo lugar de sempre.

— Escuta com atenção. Você nasceu sob a proteção de Vésper, a Estrela de Eternia. Mesmo que te encontres na escuridão, ela será tua guia.

A frase, dita numa voz profunda e poderosa, assustou-o, e encheu-o por dentro, como quando se ouve algo num volume muito alto.

— Quem tá aí? — perguntou, ansioso. — Chega de ficar só falando, aparece! Toda vez é a mesma coisa!

— É um milagre, acredite, que você consiga ouvir a minha voz. Mas em breve você me verá. Breve para mim, que espero há muito tempo. Por hora, é preciso apenas que você reconheça seu caminho.

De repente, abaixo de seus pés saíram finíssimas linhas de luz branca que, percorrendo o espaço aberto, desenharam uma estrela estilizada de cinco pontas. Do centro dela saiu outra estrela, sendo essa de metal dourado com uma jóia verde e redonda no meio. Era magnífica, polida a tal ponto que se poderia jurar que uma mínima camada de água a cobria, e a jóia emanava uma aura intensa da mesma cor verde.

Sentiu uma vontade muito forte de tocá-la, era-lhe tão familiar. Parecia que a estrela era um objeto perdido que finalmente encontrava. Quando encostou sua mão, um calor, familiar também, percorreu todo seu corpo. Não precisaria mais sentir aquela falta, o que era seu, retornava. A voz voltou a lhe falar:

— A hora de você vir até nós está chegando. Que a Profecia se cumpra finalmente. Ŝirmilo þildo.
No escritos foi gravado. Regido de Vésper, evite o fim de tudo. Que a Profecia se cumpra.

Ele ouvia, contudo mais uma vez nada entendia. A voz sumiu. A estrela tornou-se um pequeno ponto de luz verde que entrou em sua mão esquerda. Depois disso, tudo girou. Imagens inundaram sua cabeça: pessoas guerreando, um homem segurando uma coroa branca, um coroa negra se partindo, uma paisagem bela se tornando cinzas, três pessoas com asas ajoelhando-se em reverência, uma mulher esperando num porto de pedra, e no fim, olhos amarelo-dourados abrindo-se no escuro dando forma a alguma coisa que ele não conseguiu ver, porque foi engolido por ela.

Acordou.


Estel teve que acreditar no que acontecia, pois as pessoas ao redor dele faziam parte da sua realidade. Estava parado no meio do corredor do colégio, com as faces brancas e suadas, a mão esquerda estendida para o nada. E para piorar, além disso, a julgar pela cara dos outros alunos, tinha certeza que segundo atrás gritara um desesperado “não!”.

As expressões variavam desde a careta de susto aos risinhos de zombaria. De certa forma ele já estava, contra sua vontade, acostumado com isso. Como em todas as outras vezes, Estel tinha de dar um jeito de sair daquela situação. O sinal da aula deu-lhe uma súbita e estúpida idéia.

— É...é, Edu, parece que eu perdi a aposta que NÓS fizemos! – disse, com a voz um tanto trêmula, a qual disfarçou com uma risada insossa. — Não consegui chegar ao bebedouro com os olhos fechados, antes de o sinal tocar!
Um dos garotos da multidão, na mesma imobilidade assustada que Estel, levantou-se dum pulo do banco em que estava e falou:

— OH! É...é verdade! Hehehe! Bem que eu te avisei! Parece que eu garanti o rango de hoje! A Bia está de prova, não é?! Não é, Bia?!

— Cla, cla, claro!! — respondeu uma garota, pulando também do assento. — Mas já tocou o sinal, vamos para a aula, vamos!
E saiu puxando os outros dois por entre alunos ainda imóveis. Na sala de aula, Estel jogou-se numa carteira e enterrou a cabeça entre os braços. O que ele não faria para que a terra o engolisse, e mastigasse, naquele momento... Os outros dois sentaram-se ao seu lado.

— Ei, cara, você tá bem? — indagou o primeiro. — O que diabos foi aquilo?!

— Ora, o que foi aquilo?! — respondeu Estel, com mais raiva do que pretendia, sem levantar a cabeça. — O de sempre, né, Eduardo?! Acho que vou seguir o conselho do Caio, vou para um hospício...

— Não é hora para brincadeiras, Estel! — brigou a segunda, dando uma tapa da mesa da carteira. — Você estava branco como um fantasma, fazia caretas de dor! As outras vezes nunca foram tão fortes assim, não faziam você agir como um sonâmbulo! Nós chamamos por você antes de sair andando, mas você não acordava! Você...tá chorando?

— Claro que não, Bianca! — exclamou Estel, levantando a cabeça tão rápido que deu um jeito no pescoço. — É que eu estou um pouco tonto, toda vez que isso acontece fico assim... Foi bizarro!

— E o que você viu dessa vez? — questionou Eduardo. — Aquelas imagens doidas de novo?

— Não, dessa vez tudo teve “sentido”, e foi tão real que cheguei a pensar que não estava sonhando...que de algum modo eu tinha ido parar naquele lugar. — comentou o outro. — Não que o “sentido” dessa vez me fez entender alguma coisa...mas era como se eu sempre estivesse esperando por aquilo lá.... Vocês querem saber o que é, né?

E vendo a afirmação de boca aberta que os amigos faziam, Estel relatou o sonho que tivera mais real desde os oito anos de idade. Ele sabia que era o mesmo sonho, só que sem interferências nem cortes, todos os outros haviam sido um amontoado de imagens sem sentido e palavras soltas.

Porém, não era somente isso de estranho que havia e acontecia com Estel. A primeira dessas coisas, e a mais constrangedora, eram seus olhos. De um amarelo-ouro tão forte como os de um gato, difícil de não se notar mesmo de longe; nem lentes de contato coloridas nem óculos escuros resolviam, o amarelo saltava facilmente. A segunda, a mais estranha, era que em alguns momentos suas mãos cobriam-se de um fino véu de luz verde (felizmente essa nunca havia acontecido em lugares públicos) e sumia tão rapidamente quanto vinha. A terceira, a mais incompreensível, eram os sonhos, principalmente porque eles vinham ao menor cochilo de Estel, e geralmente ocorriam quando havia muitas pessoas por perto para vê-lo se contorcer e falar coisas estranhas. A última, a mais irritante, era o seu nome: Estel Elecktrion. Todos que o ouviam se interessavam em perguntar de onde ele vinha (ou se não era nome de mulher), de que país, de que família, e era isso que irritava, pois toda vez Estel inventava uma história diferente dependendo da profundidade das perguntas. E por que ele não falava a verdade? Porque ele simplesmente não sabia. O único parente que Estel possuía era a mãe, e ela fazia questão de mudar de assunto quando se perguntava sobre “família”.

Todas essas coisas o faziam um mutante frente às pessoas. Lembrava que, nas escolas que entrara, tivera de provar que não era doente, por causa dos olhos, e nem louco, por conta dos sonhos e “ataques” que tinha durante o sono. Quantas vezes sua mãe já não fora convidada a levar o filho pequeno ao psicólogo, por conta da imaginação fértil demais dele?

Achava um milagre que conseguira segurar dois amigos por três anos. Considerava Bianca e Eduardo heróis, pois conseguiam conviver com os olhares tortos para Estel, o que conseqüentemente os faziam doidos também. Com eles a vida era ligeiramente mais normal.

— É, definitivamente, esse foi o sonho mais doido que você já teve. — comentou Eduardo, bagunçando os cabelos encaracolados e arregalando os olhos verdes já redondos demais. — Faz sentido, mas ao mesmo tempo, não faz sentido algum.

— Estel, tem certeza de que não assistiu a nenhum filme ontem à noite, sei lá, leu um livro ou coisa do tipo? — indagou Bianca, nem um pouco segura da própria suposição.

— Acho que eu nem preciso responder, certo? — respondeu Estel, dando a sua segunda risada insossa do dia. — Bem que eu queria que tivesse sido isso. Foi como se finalmente todas as partes de um vídeo tivessem se encaixado. Todos os sonhos que eu tenho, são esse. Não que isso ajude muito, mas melhor do que ficar vendo coisas borradas.

— Você...é...não quer ir para a enfermaria? — perguntou a amiga, tão segura quanto da primeira vez, balançando para um lado e para outro a cabeça coberta por longo cabelos castanhos. Seus olhos escuros estavam fixos nas mãos. — Por causa do mal-estar que você estava sentindo, é isso!

Estel sentiu uma pontada de decepção com a sugestão de Bia. Sabia que não era por conta do mal estar...Bia não conseguia esconder suas reais intenções.

— Bom-dia, pessoal. — anunciou o professor, entrando na sala.

— Deixa pra depois, a aula vai começar. — disse Estel, numa frieza perceptível na voz baixa, dando as costas para a garota.

Porém ele não ficou muito tempo com a cabeça erguida. Quando se deu conta que seria aula de biologia, fingiu rapidamente cair em sono profundo. O professor adorava dá-lo como exemplo de qualquer coisa e, muitas vezes, perguntava que tipo de mutação genética havia ocorrido para que ele nascesse com aqueles olhos. Fazendo todos pensarem que estava dormindo, metia medo, ninguém queria atrair para si o maluco, agora sonâmbulo. Em algumas vezes isso chegou a ser engraçado, mas agora o fazia sentir-se mais mutante do que nunca.

Se Bia o estava mandando para a enfermaria, era porque estava começando a achar, como todos os outros, que ele era ou estava doente. Tudo bem, admite-se, os sonhos e os olhos não eram nada normais, porém, tirando isso, Estel era saudável como qualquer garoto de 17 anos deveria ser. Se os sonhos não possuíam explicação, porque não fazer um esforço e deixar eles para lá, como ele mesmo havia tentando fazer por toda a vida? Mas parece que, pelo menos para ela, isso era impossível...e isso incomodava. Estel gostava de Bianca mais do que se gostava de uma amiga.

Afundou a cabeça ainda mais entre os braços, fazendo os cabelos curtos muito negros e lisos caírem sobre os olhos.

— “Pelo menos isso eu posso dizer que tenho de normal.” — pensou Estel, nem um pouco firme no que pensara, achava que os cabelos eram lisos demais. E achava também, que além de mutante e louco, estava ficando neurótico.

. . .

Um comentário:

  1. Gostei. ^^ É cedo demais para se comentar ou criticar muita coisa, mas a sua narrativa me envolveu muito. Desde o desenrolar do sonho do Estel, que me fez viajar bastante, até à sua atenção para com as reações dos personagens enquanto conversam. Deu para entender suas personalidades e aceitar a relação entre eles logo de cara. Vou continuar a acompanhar, tanto pela curiosidade, como para poder comentar mais. =)
    Abraço.

    Ehouston

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