Nono Escrito – Luan
Sentindo uma forte claridade nos olhos, Estel acordou. Deu-se conta que todo seu corpo estava meio dolorido, deitado de bruços numa cama macia. Havia arranhões e cortes cicatrizando, partes ainda com curativos e mãos com marcas avermelhadas.
Uma porta atrás dele se abriu e uma pessoa entrou, dirigindo seus passos para onde ele estava.
— Bom dia, Estel. Que bom que recobrou os sentidos. Como se sente?
A voz vinha de uma mulher jovem, alta e muito bela. Tinha cabelos escuros caindo em cachos pelos ombros, a pele muito alva e vestida em roupas azuis. Mas havia uma coisa estranha...ela não abria os olhos.
— O que foi? — perguntou ela, com um sorriso. — Está tão mal assim que não consegue falar ainda, ou ficou admirado por não ver meus olhos abrirem?
— ! Desculpa, eu não... — falou o outro, constrangido.
— Não se preocupe, já estou acostumada com essa reação. Todos se admiram com uma cega que ainda vê.
Estel entendeu o que a outra dissera no momento em que a viu mexer na cesta cheia de fracos do criado-mudo. A jovem os tocava sentindo a forma, abria a tampa e cheirava, chacoalhava-os junto ao ouvido, alguns até provava. Assim que achava o que queria, colocava a quantidade que queria numa tigela, sentindo a substância nas mãos ou usando um medidor com marcas em alto-relevo na parte de dentro.
— Com sua licença, vou descobrir suas costas. — disse a moça.
O garoto só respondeu um “hum-rum” sem jeito, descobriu que estava de calças, mas não eram as suas, e tentou não imaginar quem poderia tê-lo vestido.
— Meu nome é Nívea Hártemys, sou a irmã de Luan. Você está em nossa casa. — explicou ela, lendo os pensamentos do defensor que queria situar-se. — Assim que aquela confusão terminou, você e sua amiga foram trazidos para cá. Você dormiu por dois dias inteiros. Como se sente?
— Bem. Mas ainda meio dolorido...
— Não é à toa. Além de ter passado esses dois dias praticamente sem se mexer, você fez um esforço muscular muito grande sem a mínima proteção. Foi um milagre não ter quebrado a coluna. Agora eu vou tocar nas suas costas, diga-me onde ainda sente dor.
— E a Solenni, como ela está? Ai! Aí, aí tá doendo...! Ah! Aí também...!
Nívea pegou uma boa quantidade da substância branca que remexia na tigela e passou ao longo das omoplatas de Estel e na altura dos rins. Logo ele sentiu uma reconfortante sensação de dormência. Quando Nívea terminou, respondeu a pergunta:
— Bem, quanto a Solenni, por que não pergunta pessoalmente? Ela está subindo as escadas.
No momento seguinte, uma voz conhecida ressoou no quarto:
— Bom dia, Nívea. Tem uma pessoa... — falou a espártaca, até por os olhos no Estel consciente. O defensor observou que ela mancava com uma perna enfaixada e exibia tantos ferimentos quanto ele próprio. — Estel...que bom que acordou. Como está se sentindo?
— Bem melhor agora. — respondeu o outro, com o maior sorriso que o rosto ferido conseguiu dar. — E você?
—Estou melhorando. Não estava tão ruim quanto você.
— Não o tranqüilize com falsas informações, senhorita. — rebateu Nívea, séria. — Seu tornozelo quebrou, você teve várias luxações no braço, e uma hemorragia feia no corte da têmpora, fora todos esse aranhões enormes. A única diferença entre vocês dois é que Solenni ficou consciente o suficiente para não largar você até vir para cá. E tenho dito.
Solenni arregalou os olhos, embaraçada, sem saber como reagir. Estel deu um sorriso, gostara de saber da última parte, apesar do resto ser bem preocupante.
– Mas, Solenni, o que você queria me falar naquele momento? — perguntou Nívea, voltando ao tom gentil.
— Tem uma pessoa lá embaixo esperando por você. — respondeu a espártaca. — Um entregador.
— Ah! Ótimo, minhas encomendas chegaram. O estoque de mandarinas estava muito baixo e...
E saiu, falando mais consigo mesmo que com os garotos. Estel, aproveitando a deixa, indagou Solenni:
— Foi ela quem cuidou de nós, não foi? Incrível como ser cega para ela não parece ser ruim.
— É... — concordou Solenni, mas sem muita convicção. — Mas Nívea na verdade faz isso para esquecer que está com a mesma doença que a mãe.
—...como?
— Ontem a noite eu despertei ouvindo uma discussão entre Luan e o pai dele. Luan sabe que é um Regido e quer nos acompanhar, mas o pai é contra... Eles também falaram sobre algumas coisas que não entendi até Nívea vir falar comigo. Na verdade, ela desabafou, estava muito abatida.
“A mãe deles Hannah, morreu há cinco anos. Ela tinha uma doença estranha, que foi degenerando as funções do corpo dela aos poucos. O primeiro sinal dela foi a cegueira.”
—...!!
— Na época Luan tinha treze anos e ficava a maior parte do tempo com a mãe, enquanto o Sr. Dimitri, o pai dele, e Nívea procuravam desesperadamente por uma cura. E quando eles voltavam para casa, ouviam de Hannah e Luan que os dois haviam conversado com um dos Vigilantes e que Luan fazia parte da profecia da Coroa Branca.
“O Sr. Dimitri e Nívea acreditaram que Hannah estava alucinando e que Luan poderia estar desenvolvendo a mesma doença que a mãe. Com medo que ele piorasse, o Sr. Dimitri afastou Luan da mãe, fazia de tudo para mantê-lo longe de casa. Cada vez mais sozinha, Hannah entrou em depressão, acelerando a doença, fazendo-a falecer.”
“Luan ficou indignado e falava em alto e bom som que a culpa da morte da mãe era deles, do pai, porque a havia abandonado. Defendia que ela não estava louca, que todas as visões dela seriam verdadeiras, pois ele mesmo continuava a tê-las.”
“O Sr. Dimitri não acreditava no filho e ficou com medo que ele já estivesse doente também. Só que, quem realmente estava doente era Nívea. Há um ano ela adquiriu a cegueira e, também, as visões sobre Luan. O Sr. Dimitri começou a fazer com a filha a mesma coisa que fez com a esposa, queria isolá-la de tudo e todos, até fez ela ser demitida do hospital que trabalhava. Passava dias fora de casa, dizendo estar procurando mais uma vez pela cura.”
“Luan não queria que a irmã tivesse o mesmo destino que a mãe. Sabia que o pai não estava realmente preocupado, só não queria arriscar que uma filha doente e louca manchasse mais sua reputação entre os importantes de Magussíria, como a esposa o fizera. E por conta do que ele falava, Nívea foi isolada pela maioria dos que a conheciam.”
“Contrariando o pai, eles dois saíram de casa. Luan passava com a irmã todo o tempo que não pudera com a mãe, incentivou-a a atender pacientes em casa, a se adaptar a cegueira, enquanto ele cuidava do resto. Isso a ajudou muito, eles se sustentam hoje com esse trabalho.”
“Luan queria um meio de curar a irmã acima de qualquer coisa. E ela o ajudou nesses estudos até onde achou sensato. Testava ingredientes, fórmulas, mas nada acontecia. Ele pedia ajuda aos familiares e a pessoas conhecidas quando o dinheiro não dava para sustentar a pesquisa, mas o pai mais uma vez foi contra e fez os outros fecharem as portas para Luan, que, então, resolveu continuar a pesquisa à força. Começou a roubar e a ameaçar. O pai, ele sabia, mandava para ele uma espécie de mesada anonimamente, o que ele gastou comprando a companhia e a ajuda daqueles garotos lá.”
“Como Iona comentou com a gente, ninguém ligava muito para o que ele fazia. Além de o pai também acobertá-lo. Era coisa de jovem rebelde, assunto pequeno demais para se preocupar. Foi então que seus sonhos, antes sem nexo, começaram a tomar a forma que ele nos falou naquela noite. Ele viu a gente, os arcos de pedra, terremotos. Um garoto com escudo que quebrava rochas, e uma garota de cabelos vermelhos e olhos dourados nas mãos que podia curar a irmã.”
— Nossa... — sussurrou Estel, sentindo um peso no estômago ao final da narrativa. Parecia que ele acabava de ouvir um desabafo também... — Ele sonhou exatamente...
— Isso mesmo. Com você derrotando a serpente e a mim curando a irmã. Por isso quando me viu, começou a me perseguir. Ele, ontem, veio falar comigo, pedir desculpas. Eu não tenho os olhos dourados nas mãos, mas Nívea revelou que ele tem mais e mais certeza de que sou eu quem vai curá-la.
— Mas...como você vai fazer isso?!
— Eu não sei...mas Nívea também acredita nisso.
Estel viu uma expressão dolorosa no rosto de Solenni que não era por causa da perna machucada. Suas mãos se contorciam. O garoto quis esticar o braço para por sua mão sobre as dela, mas Nívea reapareceu no quarto, interrompendo-o.
— Estel, acha que consegue se levantar? — indagou ela. — Luan fez um café-da-manhã maravilhoso para nós.
— Mesmo que não pudesse, eu iria. — respondeu Estel. — Estou com um buraco de fome no estômago.
Ajudado por Solenni e Nívea, Estel colocou uma blusa e os três desceram para a sala. Era uma casa simples e pequena, mas arrumada e confortável para duas pessoas. Estava clara e uma leva brisa entrava, vindo das portas laterais da sala que levavam a um jardim com todo tipo de planta e uma pequena estufa mais atrás. Na lareira da parede oposta, a salamandra-rubi estava muito bem, dormindo em cima de várias brasas inapagáveis.
— Ah! O boa-vida resolveu se levantar! — disse Luan aparecendo na sala, com uma chaleira fumegante com algo inconfundível para Estel: cheiro de café. Ele agradeceu de novo por mais essa semelhança de Eternia com seu mundo. — Se eu soubesse que matar uma cobra me daria o direito de ser tratado por duas beldades, eu mesmo teria feito isso antes.
— Se você acha que “boa vida” é agüentar algumas toneladas de pedras nos braços e nas costas... — disse Estel, rindo. — Então eu entrego de bom grado para você o meu escudo, dá muito trabalho carregar aquele trambolho.
— Ah, Estel, meu irmão acaba de lhe dar bom dia. — comentou Nívea, sorrindo. — Não ligue, ele é meio desbocado mesmo. Mas pelo que ouvi, você vai conseguir se defender.
— O que é uma grande injustiça! — contrapôs Luan. — Aí são dois contra um.
—Pelo que a sua irmã fala, você deve valer por três...então, tecnicamente, ainda estamos na desvantagem. — rebateu o defensor.
— É assim? Tudo bem, aceito o desafio. — continuou Luan, estufando o peito. Em seguida ele deixou o tom de brincadeira de lado e, aproximando-se de Estel, esticou a mão para um cumprimento. — Ei, cara, desculpa pelo que aconteceu...e sabe...que bom que você melhorou. Estava horroroso quando chegou aqui...se bem que de lá pra cá não mudou muita coisa.
— É?! Pelo menos o horroroso aqui está sendo cuidado por duas beldades. — respondeu Estel, balançando a mão do outro. — Se você quiser, eu lhe dou todas as minhas dores, cortes e feridas. Quem sabe assim tenha a mesma sorte que eu.
—Não, muuuito obrigado. Sentir dores me tira o apetite.
Estel riu, mas sabia que Luan sentia dores sim. O mesmo cheiro mentolado da substância que Nívea passara em suas costas vinha dos braços do outro, que pareciam inchados.
Uma mesa com mais lugares do que conseguia comportar estava posta. Havia muita comida e café, o que deixou os hóspedes satisfeitos. Quando Luan voltava da cozinha com uma cesta de pães e uma torta absurdamente cheirosa, a campainha da casa tocou.
— Ele chegou, Nívea. — disse Luan, com um sorriso brincalhão. — Não vá ficar tímida por nossa causa, pode agarrar.
— Quem será tão cedo assim? — questionou Solenni.
—Alguém que quer conversar com vocês. — falou Nívea, sorrindo. — Ele disse que viria tomar café conosco.
A jovem levantou-se e abriu a porta.
— Pontual como sempre. — disse ela. — Bom dia, Magnus.
— Bom dia, Nívea.
O dono da voz transpassou o portal, revelando-se. Era um homem alto e que chamava atenção pela elegância do seu porte e pelo exótico de sua aparência. Sua pele era tão alva quanto à de Nívea, os cabelos louros num tom de areia jogados para trás caíam até a cintura, seus olhos atrás de óculos redondos eram gentis e de um castanho-esverdeado muito vivo. Usava trajes em azul-claro, roxo e branco com estampa de luas prateadas. Na testa brilhava uma pequena gema roxa. Lembrava ao mesmo tempo um magussírio e um monge.
— Bom dia para vocês também, jovens Regidos, que a Mazda de seus corações esteja reluzente. — falou ele, colocando as mãos em posição de reza para cumprimentá-los. Ele tinha um sotaque peculiar, igual ao que Estel vira num personagem indiano de um filme. — Hum! Que cheiro bom! Café na mesa!
— Quanto mais gente melhor. — comentou Nívea, radiante.
— Como está o Sr. Hártemys? Ele não se machucou com o ocorrido?
— Não, ainda bem. Quanto ao resto, está tudo como o de sempre.
— Ótimo! — exclamou Luan, um tom raivoso na voz, sentando à mesa. — É bom ter mais gente em casa, mas não qualquer um. Só Magnus já é o suficiente.
— Eu agradeço a consideração, Luan, mas vamos esquecer por um momento essa situação desconfortável. Primeiro, quero me apresentar a Estel. Eu sou Magnus, o Terceiro Vigilante.— falou o homem, tomando seu lugar. — Vamos focar agora na conversa que eu preciso ter com vocês.
— E o que você precisa nos dizer?
— Na verdade, esclarecer. A primeira delas é que, agora que Luan foi “achado”, ele precisa obter o Cetro Fafnir.
— É duro imaginar que esses três façam parte de algo tão grande e perigoso, que tenham responsabilidades tão pesadas. — comentou Nívea, seriamente. — Veja o que aconteceu a Solenni e Estel... Não vou mentir, Magnus, eu temo pelo meu irmão.
— E esse sentimento é mais do que justo, Nívea. É o mesmo que eu e os outros Vigilantes temos. Mas a questão é: se o Sábio-Rei os escolheu, devem haver fortes motivos. E, creio eu, que um desses motivos é o fato de que cada um é completamente diferente do outro. Um magussírio, uma espártaca e uma pessoa de outro mundo que, apesar do tempo que já passou em Eternia, ainda continua com seus pensamentos e definições do seu mundo de origem. Sem falar das experiências que já viveram e ainda viverão, além da personalidade. Meu mestre deseja que haja a solução o mais equilibrada possível para o que acontece em Eternia, visto que vocês vão interagir diretamente com o Abençoado, o novo Sábio-Rei. E eu acredito piamente que, o que vocês decidirem, salvará Eternia.
Os garotos ficaram meio inquietos com a consideração e a confiança que Magnus depositava sobre eles. Estel perguntou:
— Magnus, mas você sabe por que eu exatamente? Falei com Perseu e ele não sabia a resposta.
— Eu, infelizmente, também não sei, Estel. — revelou Magnus, sério. — O Sábio-Rei não nos revelou o motivo.
— Algum de vocês vai nos acompanhar? — questionou Luan, com uma ponta de esperança.
—Não, infelizmente não podemos. Temos observado vocês de longe, muito preocupados se querem saber. Os Vigilantes, ultimamente, não têm tido um momento de paz, toda Eternia tem precisado de nossa ajuda e fazemos o possível para supri-la. Portanto, não podemos ficar com vocês, mesmo que esse seja nosso desejo. Hoje foi aberta uma pequena exceção por conta de nossa conversa. E como eu disse, a primeira coisa a se fazer é destrancar o Cetro.
— E onde ele está? — indagou Solenni.
— Você sabe onde fica o Rio Argênteo, Solenni?
— Há mais ou menos vinte e cinco dias de viagem, partindo de Magussíria indo rumo a noroeste. A que altura você quer que a gente chegue?
— Até onde ele forma uma de suas cachoeiras, dentro da Floresta Cinis. No lado leste da cachoeira está o templo. Mas o trabalho pesado começa depois, Perseu e Andrômeda já devem ter comentado com vocês sobre as littas.
— Sim. — respondeu Estel. — Vocês sabem onde elas estão?
— Não. Quem determinou o local das littas de vocês foi a Coroa Branca e o Sábio-Rei. E, veja, Estel, o caminho que vocês fazem para encontrá-las é muito importante. Elas são as chaves para seus poderes, mas o que vocês passam até chegar a essas chaves é a preparação para possuí-los. Diga-me, Estel, não aconteceu nada de estranho quando estava indo de encontro à sua primeira litta?
— Sim...eu prestava muito atenção na Estrela Vésper. E me lembro de falar coisas que não sabia com uma grande certeza. Foi realmente estranho...mas me deixava tranqüilo, seguro ao mesmo tempo.
—É isso a que me refiro. A força da estrela está em você, Estel, e as littas são a conexão que você precisa para compreender mais essa força. Você é atraído para as littas quando muito próximo a elas, e esse sentimento de acolhimento e segurança será o sinal de que as achou. A estrela será sua guia ante toda a escuridão.
O garoto sempre sentia calor morno no peito ao ouvir aquela frase. Magnus prosseguiu:
— O fato é que Luan também tem suas littas, mas elas são um pouco diferentes. São os cinco dragões-totens de Eternia, os que são citados na profecia.
— Eu meio que já sabia disso...mas mesmo assim! — exclamou Luan, passando a mão pelos cabelos várias vezes. — Pensei que só teria um cetro mais bonito, sei lá, soltando luzes mais incrementadas.
—E de certa forma você não está errado, só que dessas luzes sairão seres para lhe ajudar. Na última guerra contra a Coroa Negra a raça dos Dragões foi covardemente dizimada. O Sábio-Rei convocou as almas dos Cinco Soberanos, os dragões mais poderosos, e selou-os em lugares pelo mundo até que o Mestre do Cetro apareça para acordá-los. E esses lugares podem ser lugares completamente diferentes de onde estão as littas de Estel. Será uma viagem longa. Por isso, sugiro que a litta de Solenni seja a última a ser pegue.
— Por quê? — questionou a espártaca, intrigada. — Aliás, por que minha litta é a única que se sabe a localização?
— Vou responder a segunda pergunta, agora. Sua litta vem sido protegida por um povo há milênios, um povo que participou da última guerra. Os Kemets. O Sábio-Rei, honrado com a dedicação desse povo na proteção de Eternia, deu-lhes a litta de Hórus para que a protegessem. Construíram um templo para depositá-la, no Deserto Sabloro, onde vivem, e o cercaram com suas magias e gênios bons que são fraternos a eles. Não vou dizer que ninguém nunca tentou pega-la, mas é óbvio que foram tentativas inúteis. Ela é sua e somente sua.
“Quanto à primeira pergunta. Por quê? Devido você ter apenas uma única litta, Solenni, a dificuldade em tê-la será muito maior, e ouso dizer que será mais difícil do que as de Estel e de Luan. Nívea já deve ter comentado com você sobre os sonhos de Luan com uma jovem com olhos dourados nas mãos. Essa pessoa é realmente você, Solenni. Uma pessoa que será capaz de manipular a força imperial, quase destrutiva do sol, mas, com essa mesma força, capaz de curar tanto o corpo quanto a alma. E uma dádiva pesada como essa, Solenni, necessitará de muito preparo, você passará por uma grande provação. Eu não sei qual será essa provação, só vejo fios soltos do futuro, não sei como eles vão se tramar para formar o tecido. Esse tecido que é a vida de vocês, as escolhas de vocês. Ninguém pode interferir nelas, ninguém. Essa é a verdade.
Magnus falara aquilo tudo com tanta seriedade que todos os outros na mesa estavam mudos de tensão. Estel olhou para Solenni, que estava com uma expressão fechada, concentrada, pensativa. A voz do Vigilante voltou a se mostrar:
— Outra coisa que preciso falar para vocês é que, estando juntos, evitem o máximo possível se separarem.
— Por quê? — estranhou Luan. — Se você diz que as minhas littas e as de Estel podem estar em lugares completamente diferentes, não seria melhor a gente se separar para consegui-las mais rápido?
— Na teoria, sim, mas na prática seria a pior das escolhas. Como vocês sabem, a Coroa Branca foi quem criou as três forças que vocês carregam: o Escudo, a Espada e o Cetro. Elas representam as joias, as faces da Coroa Branca: a Proteção, a Força e a Sabedoria, respectivamente. Então, quando unidas, essas forças equiparam-se, igualam-se a da própria coroa e recebem dela todo o equilíbrio e todas as dádivas. O que quer dizer que acontecerá o mesmo com vocês. No momento em que vocês se encontraram, reconheceram-se como Regidos, a Coroa Branca lançou sobre vocês um encantamento que os uni e os guarda. O que não satisfaz a Coroa Negra, que vai tentar separá-los de todo e qualquer jeito e impedir que encontrem o Abençoado.
— É, e parece que ela já começou. — comentou Luan, bufando. — Olha o que aconteceu aqui há poucos dias!
— Luan, o que você presenciou foi pouco... Eternia em alguns lugares está literalmente morrendo. Depois de tanto tempo de clausura, a Coroa Negra cresceu em astúcia e maldade. As criaturas que estão surgindo nesses dias estão tão inteligentes quanto violentas. Há uma aura de medo e preocupação rondando as coisas existentes, modificando-as. As circunstâncias tentarão separá-los, mas não o façam. Não se separem.
Outro momento de silêncio sério e pesado. Os três jovens entreolharam-se confusos e um tanto temerosos. O que seria deles a partir do momento em que saíssem para o mundo...?!
— Bom, o café estava maravilhoso, Luan, como sempre. — falou Magnus, agora num tom jovial. Nem parecia que tinham acabado de conversar sobre o destino deles. — Adorei a oportunidade de passar esse mínimo tempo com vocês, mas preciso voltar imediatamente aos meus afazeres. Logo que nos for permitido, voltaremos a nos encontrar. Se não for eu mesmo, virá Perseu ou Andrômeda.
Estel, Solenni e Luan nada responderam, presos ainda na conversa anterior. Notando, Nívea levantou-se para acompanhar o outro até a porta. Lá fora ambos ficaram alguns segundos em silêncio, até Nívea falar tristemente:
— Magnus, por favor, cuidado. Eu...não queria passar tanto tempo assim sem vê-lo, mas sei que é um direito que não posso exigir. Tanto pelo o que você é, quanto pelo o que eu fiz.
— Nívea, por favor, não fale assim! — disse Magnus, angustiado, ao segurar as mãos da outra entre as suas. — Você nunca deixou eu me culpar pelo que aconteceu com sua família, apesar de eu crer no contrário. Então não vou deixar você o fazer também, você não tem culpa. O que houve foi uma série de terríveis fatalidades... E quanto ao seu desejo, ele também é o meu. Eu não quero ir para longe de você...mas eu amo Eternia, Nívea, preciso ajudá-la.
– Eu sei disso, Magnus, e eu o admiro por isso, mais do que pode imaginar. Mas...meu pai se foi, Luan terá de partir também....eu nem sei quando verei você outra vez... A perspectiva de que vou ficar sozinha me deixa com muito medo...temo não resistir a essa doença.
— Você não vai desistir, Nívea! Eu não quero perder o que eu achei de mais importante em todas essas eras imortais como Vigilante. É por você que eu me arrisco, que me afasto. Pois quando voltar, será definitivamente. Não mais como o Terceiro Vigilante, apenas como Magnus. E eu verei você curada.
— E você acha...
— Que você vai ser curada?! É claro! Eu ponho toda a minha fé naqueles jovens, seria capaz de qualquer coisa para protegê-los, para garantir a felicidade deles, principalmente a de Luan que amo como a um irmão.
— É a única coisa a mais que peço para você, Magnus, velar por ele, como puder. Eu só estarei curada de verdade quando eu vir vocês entrando nessa casa de novo, para ficar.
— E eu virei e ficarei.
Magnus abraçou Nívea muito intensamente. A jovem passou as mãos pelo rosto do Vigilante, em seguida beijou-o nos olhos e nos lábios. Ele fez o mesmo gesto. Então se separaram. Magnus andou alguns passos hesitantes, mas não olhou para trás. Algumas pessoas na rua admiraram a belíssima garça branca que acabava de se erguer ao céu.
. . .
Eita! Eita! Eita!
ResponderExcluirÉ muita coisa pra ler, mas vi o começo e gostei, não termino pq tô com sono mesmo, mas verei assim que tiver tempo, pode demorar pq tô muito sem tempo mesmo, mas pode deixar que vejo aqui!
Beijo!